30.9.02

O dia em que o morro descer
Isso era ironia, mas o que aconteceu hoje não foi.

Bomba estourando numa faculdade. Ônibus virado pegando fogo na Linha Vermelha. Escolas e o comércio de Niterói, São Gonçalo, Zona Norte e Zona Sul do Rio fechando em cascata, ainda na parte da manhã, graças a telefonemas anônimos. O meme se espalha com a força das mentiras fermentadas pelo medo.

Existe uma crença tão assustadora quanto uma quimera de Lovecraft entre a classe média, que assume ares apocalípticos ao tentar descrever o que ocorrerá no dia em que o morro descer, naquele dia mítico em que as empregadas cansarão de seus quartinhos apertados, em que aquela entidade conhecida como o povo não se satisfará mais com cachaça e futebol e invadirá as coberturas da Vieira Souto, decapitando as Marias Antonietas que nunca se viram ameaçadas na nossa História por revoluções, guerras de secessão ou milícias revoltosas.

Despido de qualquer conotação política, hoje foi o que chegou mais próximo do que se pintava como o dia em que o morro ia descer. E tudo por conta de boatos, apenas? E tudo uma manipulação política, com fins de desestabilização, como disse a governadora? Ou teria sido tudo uma retaliação do bando de Beira-Mar contra a remoção de Bangu I? Fato é que ninguém quis pagar para ver se as ameaças eram pra valer, a insegurança e o medo foram maiores. E ainda ouvi dizer que hoje tinha sido "só um aviso", quarta-feira é que o bicho ia pegar.

Eu só imagino o que deve estar pensando o Nando, que veio de Floripa só para o festival de cinema. O Rio é coisa de cinema? Só se for Godfellas, Um Dia de Cão, Sob o Domínio do Medo e Cidade de Deus.
Usagi Yojimbo é um coelho samurai, com histórias baseadas no herói japonês Musashi, e agora sua editora está disponibilizando histórias em quadrinhos coloridas on-line -- imperdível.
Passo umas semanas fora, e quando volto o abismo parece estar ali na esquina: Garotinho no segundo turno, dólar escalando o Everest, prédio caindo no centro da cidade. Imagino encontrar gente arrancando os cabelos pela ruas, mas a quantidade de cidadãos que encontro no sábado de manhã na praia, bebericando ou batendo papo nos bares da orla mostra que o clima de tranquilidade é geral.
Ram manda avisar: da relação entre a contra-cultura e a indústria da informática, particularmente na criação da Apple:

This connection between computing and anti-authoritarianism was successful in part because it played on an assumption held by many people involved in early personal computing: that the invention of the personal computer owed as much to the counterculture's desire to oppose centralized authority and technology, as it did to the invention of the microprocessor.

29.9.02

A cidade começou numa praça central, onde se localizava o mercado, principal ponto de encontro das gentes onde as interações -- sociais, econômicas, políticas -- se davam, estendendo-se progressivamente em direção ao mar, através de uma larga avenida que desemboca no porto, outrora tomada por meios de transporte primitivos (carroças, cavalos, carruagens), hoje apenas logradouro de pedestres, com considerável importância turística.
Este trecho se refere a Barcelona ou Antuérpia?
Funciona assim: se você viaja no verão, fica cheio de turistas e não dá para ver os monumentos, porque estão cobertos com tapumes e andaimes para reformas e limpeza, obras impraticáveis em outras épocas do ano. Se você viaja no inverno, tua roupa não aguenta o frio e tudo fecha uma hora mais cedo.
Pode escolher.
Hipótese
Existem 3 tipos de coisas: as que se perdem, as que não funcionam e as inúteis.

Corolários
O que a gente não perde, ou não funciona, ou é inútil .
O que funciona, ou se perde ou não serve para nada.
O que serve para alguma coisa, ou se perde ou não vai funcionar...
Achava que teria que viajar muito mais para ver um moai ao vivo.
Moebius, fazendo charge política?
Parecia piada, mas fiquei completamente capturado desde que vi o livro -- Un an dans La Vie (Um ano n'A Vida). O convite viera no começo de 2001, e a partir de abril Jean Giraud iniciara o compromisso de, uma vez por semana, retratar sob a tinta de seu pincel os principais acontecimentos do mundo, na perspectiva editorial de um jornal cristão francês, ao longo de um ano. O resultado é desigual, mas nos momentos em que os fatos, as circunstâncias e o talento convergem, o que se vê são extraordinários exemplos de excelência da lógica do visual -- dois deles: na morte de George Harrison, é o artista que se auto-retrata, com uma expressão tristonha, enchendo o segundo quarto da capa do álbum branco dos Beatles com tinta preta (o primeiro quarto de luto, obviamente, foi para John Lennon), enquanto um submarino amarelo passa na janela; na estréia de Loft Story -- o Big Brother televisivo francês -- uma anônimo sorri estupidamente quando se olha num espelho cujo cabo é o de uma pistola. Tem também Anthony Quinn dançando no céu, o caubói G.W. Bush sentando no globo (quando da recusa da assinatura do tratado de Kioto), o crescimento de Berlusconi na Itália e, inevitável, talibãs cortando o cabelo à moda de Hitler.
O que Roman Polanski e Jacques Chirac têm em comum?
Maria Bethânia cantando dor de cotovelo do Lupicínio Rodrigues
Aracy de Almeida cantando Noel Rosa
Elza Soares cantando Ataulfo Alves
Nara Leão cantando Chico Buarque
Beth Carvalho cantando Jorge Aragão
Cássia Eller cantando Cazuza
Maria Alcina cantando Jorge Ben
Elis Regina cantando praticamente todo mundo
Nana Caymmi cantando letra de Aldir Blanc
Ângela Roro cantando todas elas...
A trilha sonora incidental das minhas férias continua assombrosamente desapropriada. Depois de escutar Maria Bethânia cantando uma dor-de-cotovelo (Lupicínio Rodrigues?) no meio do museu do erotismo, no ano passado, não sei se o pior foi ver uma sala de instrumentos de tortura dentro de um castelo medieval enquanto tocava Pata Pata, de Miriam Makeba, no radinho portátil da funcionária, ou ouvir os Contos dos Bosques de Viena em frente às fardas de oficiais belgas da I Guerra Mundial. Dose, viu.

A quem interessar possa
Os instrumentos de tortura foram doados pelo filho do carrasco da cidade, titular deste cargo até o ano da graça de 1880, ocupavam uma sala dentro deste castelo restaurado.
Cavaleiros medievais jogavam ludo.
(Para se distrair, entre uma justa e outra?).

20.9.02

Polanski chupando Spiegelman?
Achei que Roman Polanski estava chupando descaradamente Maus, do Art Spiegelman, na primeira parte de The Pianist, por causa do contexto de perseguição a judeus durante a II Guerra na Polônia. O nome do personagem principal é Wladyslaw (Wladek) Szpilman, e o nome do pai de Spiegelman -- personagem principal de Maus -- é Wladek, também. Depois que o filme segue seu caminho próprio, a má impressão se desfaz, ainda que me aborreça o fato do Polanski estar sistematicamente limitando-se a adaptar livros alheios, ao invés de recriá-los, ou fazer em seus próprios roteiros, como nos brilhantes Repulsion, Cul-de-Sac, O Inquilino, Bebê de Rosemary, A Dança dos Vampiros, Chinatown. Seria um filme a mais para a coleção de denúncias contra o nazismo, não fossem sutis toques dispersos ao longo dos diálogos (críticas aos judeus norte-americanos, críticas à atitude quase passiva dos judeus em relação aos alemães) que fazem a diferença final. O pianista do título é uma evidente metáfora da sobrevivência do espírito humano através da arte, mesmo nas condições subumanas proporcionadas por uma guerra, que, por mais impressionante que pareça, "aconteceu há pouco mais de 50 anos". A sessão terminou com uma chuva de palmas.
Estréia segunda-feira o primeiro longa animado do Corto Maltese, personagem inesquecível de Hugo Pratt, já com página oficial e tudo para ir sacando os personagens, sinopse, imagens... isso, obviamente, para os que ainda não conhecem o personagem, que desde sempre me foi cantado como um dos mais interessantes dos quadrinhos, o que só fui comprovar vários anos depois, junto com minha burrada por não tê-lo lido antes. Corto Maltese é um dos maiores viajantes da ficção em Hq, junto com o Tintin e o Pato Donald de Carl Barks.
Será que vai passar no Brasil?
Se alguém que matar-me de desespero, que me mate em Cachoeiro...
(Colaboração do meu chapinha Bruno Garschagen. Essa esclareço eu: a Cachoeira em questão é a do Itapemirim, no Espírito Santo.)
Se quer matar-me de rir, que me mate em Birigüi...
(Colaboração do leitor Rodolfo Padovan, que explica: "Birigüi é aquela cidade onde o Fokker da TAM fez a aterrisagem forçada, matando a vaca." Agora sim, Rodolfo!)

Ah, gostei do blog dele, de onde roubei esse excerto do Poema de sete faces, do Drummond, que eu também curto:

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo
É uma meia verdade... Ou melhor, está mais para um sessenta e quatro avos de verdade, mas vá lá...: eu já fiz um pedacinho do caminho de Santiago.
O fonógrafo de Edson, o telefone de Graham Bell, o cinematógrafo dos irmãos Luimére, o laboratório de Lavoisier, o astrolábio de Arsenius, a máquina de calcular de Pascal, o computador Cray-2 e mais um monte de brinquedinhos interessantes num só lugar.
Se Jean Paul Belmondo é o Paulo César Pereio francês (cf. Tiago Teixeira)...
... Wolinski é o Jaguar francês.
... Jano é o Angeli francês.
... Vuillemin é o Adão Iturrusgarai francês.
Foucault, Van Gogh, Rodin... blog culto é outra coisa, hein? Ou, nas imortais palavras do formador de opinião e crítica especializada João Marcelo, "alta cultura é alta cultura, o resto é o bonde do Tigrão".

14.9.02

Profético?
Há mais de um ano, andei me queixando que os gays estavam avançando -- o termo usado foi tomada de Constantinopla -- sobre Copacabana com a promessa da abertura de uma boate exclusivamente de lésbicas naquele bairro. A promessa se concretizou e o night club abriu, há alguns meses, na mesma quadra da Les Boy, então dividida com a Bunker 94, Mariuzzin, dois botecos pé-sujaços e um hotel (!). O Mariuzzin virou La Girl e o pé-sujo mais próximo está com aquela porta de metal sanfonado completamente fechada, com uma pichação em cima avisando para bom entendedor que aí vem mais. Daqui a pouco, não é preciso ser muito inteligente para perceber, o quarteirão inteiro será só de lugares gays. A pergunta que fica é a seguinte: como é que no discurso reivindicatório gay tanto se fala em celebrar a diversidade -- palavras usadas, por exemplo, no discurso politicamente correto da Hillary Swank quando recebeu o oscar por Boys Don't Cry -- em valorizar o diferente, em compreender o outro quando o que se promove, na prática, é a uniformização do meio?
Rodin era o cinzel mais duro da escultura. Ninguém me convence do contrário. Como se O beijo ou Amor Fugit fossem pouco, olha só Je suis belle
Olha, os impressionistas botavam para quebrar, mas Van Gogh, pô, Van Gogh comia Cézanne, Manet e Degas no lanche. Com farinha. Ali não é só "tintas sobre uma tela", não é, Jackson Pollock?, ali é um homem exorcisando a própria loucura -- e perdendo!
O Affonso Romano de Sant'anna fica um chato quando reclama compulsivamente das artes plásticas contemporâneas, mas quando se vê que o Pêndulo de Foucault original -- aquele mesmo com o qual, diante do Napoleão e da turma toda, ele -- ele Foucault, claro -- disse, à moda de Galileu, "aí, é o seguinte: assistam a Terra girar" -- foi substituído por uma instalação medonha, imensa, feita de umas esferas infláveis transparentes parecidas e um enorme tubo branco retorcido, quase sente vontade de dar razão a ele...

9.9.02

Bom, é o seguinte: viajando hoje de noite, volto só no fim do mês. As coisas ficarão meio paradas por aqui nesse meio tempo.
Aconteceu na cidade: em amplo bar de happy hour no centro, frequentado principalmente por advogados (dada sua proximidade do fórum), uma gata espetacular, daquelas que meros mortais costumam chamar vulgarmente de modelos, domina a pista de dança, sem dar bola para ninguém. Um amigo meu comenta que, para conquistá-la, ali, só um jogador de futebol ou coisa do gênero. Meia hora depois entra Romário, com um séquito de 20 pessoas. Não deu 15 minutos e os dois estavam ficando num canto da pista.
Eu nunca vi o Romário fora de um campo de futebol -- mas já vi o Edmundo, o animal, e ele só bebia água mineral. Sem gás.
Se você tomar LSD pode acontecer ficar assim...

8.9.02

Da série: só eu acho graça nessas coisas?
Gisele Bündchen, na capa da Elle desse mês: "Quero um homem engraçado e mais alto do que eu"
Se alguém quer matar-me de velhice, que me mate em Recife

(variação de tema em cima duma sutil contribuição enviada pelo leitor Renato, sem rima mas com graça:

Se alguém quer matar-me de velhice, que me mate em Miami)
Ainda elas!
Neo Zeitgeist narra o que aconteceu quando as nossas musas se encontraram casualmente no aeroporto de Cumbica.
Agora, a mais engraçada que me contaram esses dias é que a Clarah é filha de um daqueles caras da dupla Tangos e Tragédias. Nem me dei ao trabalho de conferir, mas se for verdade mesmo, acho que explica muita coisa...
Malandragem dá um tempo
Outra do João Saldanha, que ganhou o apelido João Sem Medo pela fama de topar qualquer parada, "em briga de homem vale tudo": seu carro tinha levado uma fechada de um caminhão. O motorista, um portuga casca-grossa, daqueles de vestir camisa do Vasco e calçar tamanco em crônica do Veríssimo, já desce da boléia com um porrete dessa idade na mão. Magrinho, pequeno, Saldanha mandou:

- O que que há, patrício? Um homenzarrão que nem você não vai precisar de um porrete desses para bater num magricela que nem eu.

O galego vacilou, João era bom de bico:

- Joga esse troço fora e vem dentro!

O português ponderou, mediu Saldanha com o olho e acabou largando o porrete. Já ia virando o primeiro tabefe quando João gingou, num drible de corpo apanhou o porrete e quase moeu o motorista de tanta paulada.
(Essa também veio do livro do João Máximo).

6.9.02

Já está rolando o volume dois da League of Extraordinary Gentlemen, extraordinária (tem dia que os adjetivos não saem) mini-série onde personagens literários da Era Vitoriana formam numa força-tarefa para resolver problemas internacionais, a mando da coroa britânica. O primeiro volume é de arrasar, particularmente os três primeiros capítulos, onde vê-se a reunião dos demais integrantes, encabeçada por Wilhelmina Murray, no Egito, em Paris e na própria Inglaterra, tudo -- personagens, diálogos, cenários -- delirantemente reinterpretados por Kevin O'Neill e Alan Moore no estilo steam punk, em cenas inesquecíveis, como a aparição do Nautillus em página inteira (no primeiro capítulo). Ninguém consegue fazer história em quadrinhos tão fluente e bem ritmada hoje como Alan Moore, o que talvez explique a corrida para verter seus roteiros para o cinema, primeiro com From Hell, agora com a League. Espero que seja publicada em português, novamente pela Pandora Books.
Optei por chamar xadrez de jogo para evitar uma discussão sobre ser ou não esporte, já que seu caráter eminentemente intelectual tende a afastá-lo da atividade física geralmente relacionada com esporte. João Máximo narra uma educativa história acerca dessa questão, em seu perfil de João Saldanha.
Em 1971, João Saldanha já tinha sido defenestrado da seleção brasileira e estava até aqui com a linha cada vez mais dura do governo militar. Henrique da Costa Mecking, o Mequinho, era um jovem enxadrista em franca ascenção, bancado e protegido pelo presidente Médici e pelo então ministro da Educação Jarbas Passarinho, a quem agradecia a cada vitória, e estava cotadíssimo para receber o Golfinho de Ouro, prêmio do MIS dado à esportistas em destaque, mas que em 1970 tivera sido usado com fins políticos. Seria vítima da vendetta do João Sem Medo.
Quando os conselheiros de esporte se reuniram, o nome de Mequinho veio rapidamente à baila, apenas para ser contestado por Saldanha, que sacou o lance das cartas marcadas:
- Só que xadrez não é esporte!
A hipótese era sagaz: João acessorara Antonio Huaiss, Otto Maria Carpeaux e mais uma dúzia de sumidades nos verbetes de esportes da futura enciclopédia Mirador, onde o xadrez havia sido definido como "atividade lúdica", não esporte. Seguiu-se a troca de argumentos:
- Xadrez aparece na página de esportes do jornal.
- Ora, o anúncio das pastilhas Valda também...
- Xadrez é uma competição, logo é esporte!
- Se fosse assim, concurso de miss e festival da canção também seriam esporte, porque há competição.
- É, mas nenhum dos dois têm uma confederação para regulamentar...
- Se o negócio é uma confederação, e os bispos têm a deles, então tem vaga para São Jorge na coluna do turfe...
O prêmio Golfinho de Ouro 1971 foi para Buck, técnico de remo.
Só falta a Fernanda
Essa nota acabou até tendo alguma repercussão. Carol Vigna-Marú leu e mandou avisar: http://www.odeioclarah.blogspot.com/.

Dica: o blog da Carolina é muito bom para quem gosta de animação.

5.9.02

- Esse lugar está vazio?
- Está. E esse aqui também vai ficar se você sentar aí.

A primeira vez que vi essa piada foi sob forma de cartum, mais um rascunho rápido do que idéia bem acabada, desenhada pelo Flávio, que hoje faz o Rumor, num cantinho da revista Bandalha (na década de 90 o Flávio tentou auto-publicar seus quadrinhos com Dasdô [92], Cerol [93], Gentileza [94] e Bandalha [99]), como uma espirituosa série de tocos que depois rodou a internet via email, em modo texto. E pensar que a tira foi censurada pelos próprios distribuidores no E.U.A.!
Sempre me perguntei quando é que eu teria o descaramento de copiar, inteirinho para cá, uma nota de outro blog. Não demorou muito. Não deu para resistir. Ao menos eu avisei ao autor que ia fazer isso:

No Brasil quem tem uma bengala branca é rei. Você vê o filme do Tarantino e já é moderno. Você ouve falar em Bukowski e já é escritor. Você lê a coletânea do Mencken publicada pela Companhia das Letras e já é reencarnação do Paulo Francis.

Tom Jobim estava completamente enganado. O Brasil é
apenas para principiantes.

Como se não fosse pouco, resolvi trazer logo outro, de carona, por um motivo especial. Quando eu o li pela primeira vez, tive certeza que o cara sabia. Francamente. Nessa idade.

Adquiri recentemente o hábito de consumir bebidas energéticas. Por um único motivo: descobri que existe uma no sabor nêspera. Nêspera: que palavra bonita. Gosto de fazer charme no supermercado perguntando se tem nêspera. Se eu tiver uma filha, vai se chamar Nêspera.
Ontem de noite conheci Mario AV por intermédio do Hiro e bati papo com a Cora Rónai. Depois, juntaram-se à roda de chopp o Ota e o Martinez. Até o Allan Sieber apareceu. Voltei para casa de carona com o Haroldinho (além de mim, tinha mais uns vinte dentro do carro...).
Como se fosse pouco, o placar do jogo foi Flamengo 5 x 2 Fluminense.
Design não é nome de perfume
Não sei se já confessei por aqui que sou fanzoca declarado das criações de Elesbão e Haroldinho, do humor incontido em cada invenção, da sua imensa capacidade de rir de si mesmo em auto-paródias que conseguem subverter o que já não era uma versão muito oficial, da pororoca de criatividade que transborda por todos os lados em variações sobre um mesmo tema (como as famosas formigas tipográficas do DDB), do desconcerto que aqueles logotipos alterados causam, culture jamming de primeira, surpreendendo a percepção média do leitor em casa, de calça arriada.
Approposito, o título dessa nota é uma citação deles.

4.9.02

Valha-me Nossa Senhora dos Mouses Encardidos! Agora os nerds são sexy!!!
(dica do Haroldinho)
Eu tenho que escutar coisas assim:
Que loira o quê. Meu negócio é morena. Não gosto de misturar as tintas.
Se alguém quer matar-me de salmonela, que me mate em Bruxelas...
(enviado por um leitor que solicitou sigilo e anonimato. Até que enfim alguém topou continuar a brincadeira)
Millôr explicou hoje a origem do nome do musical Oh! Calcutá. O que aquele monte de gente pelada teria a ver com a cidade na Índia? Nada, na verdade. Calcutá apenas é um homófono da exaltação calipígia "Quel cul tu as!", referindo-se às formas da modelo num quadro. Essa eu conhecia desde que assisti a uma montagem da peça, num teatro que virou Igreja Universal, onde os esquetes humorísticos foram nivelados à baixaria do teatro rebolado decadente. Mas os atores continuavam nus.

3.9.02

Motivos pelos quais eu adoro os guias Lonely Planet:
"Medieval Blois (pronounced 'blwah') was once the seat..."
Dois artigos instigantes: no primeiro, a estética do gueto e a supervalorização da cultura da periferia são postos contra a parede; no segundo, a história de um grupo de realizadores que pagou um real a cada espectador que se dispusesse a ver uma sesssão de seus curta-metragens, e suas implicações éticas.
Meu xará lembra bem: In Praise of Idleness, de Bertrand Russel, na íntegra.
Se alguém quer matar-me de desgosto, que me mate em agosto...
Bukowski não tem nada a ver com isso
Quando é que alguém vai fazer uma homepage Eu odeio Fernanda Young? Quando é que alguém vai fazer um blog Eu odeio Clarah Aberbuck? Quando é que a Clarah vai se mancar que escreve mal? Quando é que vai surgir uma nova geração de escritores que se destaque efetivamente por escrever de maneira inovadora, e não por causa de tatuagens, cabelo vermelho e um ego que ocupa até a contra-capa dos livros?
Se é que eu ainda não avisei: não, eu não escrevo mais no Digestivo Cultural. Muito eventualmente, pode até ser que algum texto meu apareça, mas os tempos de colunismo semanal já se foram. Escrevi muita coisa legal por lá; para não cair nessa besteira de selecionar o melhor, indico uma discussão a quatro mãos. Abra a página, pule o texto descendo a barra de rolagem e vá direto ler a seção de comentários. A gente poderia continuar com aquilo infindavelmente...
Escrevi durante por volta de um ano e meio, quase toda semana, no Digestivo Cultural, onde minhas colunas ficavam disponibilizadas em conteúdo aberto, como, aliás, todo o site. Não fui remunerado pela produção daquele conteúdo, problema que ainda hoje assola a maior parte dos repositórios de conteúdo da internet.
Steal This Essay é uma série de ensaios que discute por que o conteúdo é um bem público, porque não adianta proteger criptograficamente o meio digital, e, especialmente, como viabilizar financeiramente a produção de conteúdo. Das quatro soluções propostas -- apoio governamental, financiamento via filantropia corporativa e organizações não-lucrativas, venda de átomos associados aos bits e micromecenato -- a última é discutida por Scott McCloud na sexta edição de I can't stop thinking!.

2.9.02

Mordi minha língua: a Lia conhece, ou, se nunca leu as histórias em quadrinhos, ao menos fez uma boa pesquisa sobre a Maria Cebola e o Ferdinando Buscapé.
Um expressão que tem caído de uso: Maria Cebola. Será que ninguém mais lembra do genial Al Capp? Um criador de tipos humorísticos tão extraordinários a ponto de ultrapassarem a mera condição de caracteres ficcionais, se transformarem em símbolos linguísticos. Maria Cebola, por exemplo, era a filha encalhada de Ezequias Cebola, que se vale dum criativo expediente para conseguir casá-la: reúne todos os solteiros de Brejo Seco na linha de partida, e dá dois tiros; no primeiro, correm os homens, "como se disso dependesse suas vidas", no segundo, as mulheres, e aquele que fôsse pego até o pôr-do-sol teria que se casar. Para dar mais credibilidade, Samuel Casamenteiro seria o responsável pelos disparos. Violeta nunca conseguira capturar Ferdinando Buscapé, até que a pressão dos leitores pelo casamento fez com que ela finalmente o alcançasse. Nos E.U.A. o Sadie Hawkins Day acabou batizando festas de colégio, numa tradição que sobrevive até hoje, em eventos onde a mulher sempre tira o homem para dançar, além de Li'l Abner inspirar musicais, um balé, e até mesmo um selo postal e letras de rock.
Se alguém quer matar-me de horror, que me mate em Salvador...

1.9.02

Isto aqui é um dos melhores últimos parágrafos da literatura brasileira. Para ler com solenidade:

Com vocês, por mais incrível que pareça, Antônio Maria, brasileiro, cansado, 43 anos, cardisplicente (isto é: homem que desdenha do próprio coração). Profissão: esperança.