31.10.02

Depois disso, achei que podia encerrar a série, mas isso aqui não pode ficar de fora:

Se alguém quer matar-me de informação, que me mate na capital do Azerbaijão.

Arigato, Kazi.
Não encontrei em nenhum lugar uma noticiazinha que fosse sobre o falecimento de Ferdy Carneiro, que se você não conhece nem adianta eu dizer, que não vai entender qual a importância dele. Pelo menos, durante a busca, a gente pode se deparar com os textos do Caio Mourão, amigo do Ferdy, falando sobre um tempo e um lugar que me são mais difíceis de conceber do que a Idade Média. Um aperitivo:

Houve um acontecimento neste apartamento que ficou famoso e conhecido com “48 horas de Caio Mourão”. Tínhamos saído do Janga (Jangadeiro), Sergio, eu e umas quatro pessoas e fomos tomar a penúltima lá em casa. Só que esta penúltima durou dois dias, sempre aparecia uma outra piada, ou alguém dedilhava uma música melhor no violão e íamos ficando, a uma certa altura já com colaboradores, pessoas que passaram por lá e aderiram.
Depois do mais antigo blog do mundo, agora o NoMínimo leva para a rede os diários de Antonio Maria. Ah, se tiver pelo menos um parágrafo, unzinho só como aquele -- que começa com brasileiro: profissão esperança -- já valeu à pena.
Acho fundamental para um arquiteto saber desenhar, o figurativo inclusive. É ao desenhar, ao fazer seus croquis, que ele geralmente chega à solução procurada. De um simples croqui, surge uma casa, um palácio, uma figura de mulher. (Oscar Niemeyer)

Falando nisso, não, eu não sou arquiteto.
Sentaram a estátua do Drummond em frente à praia. Vem a se juntar à do Zózimo, no canto da praia do Leblon, ao Pixinguinha, na Travessa do Ouvidor, e ao Noel Rosa, como não podia deixar de ser, em Vila Isabel, no Boulevard 28 de Setembro. Ou seja, as chamadas boas companhias.

30.10.02

Como se não fosse ironia suficiente ter feito Lula com arroz de brócolis para o almoço de segunda-feira, o cozinheiro ainda deu-se ao luxo de apresentar este prato como opção ao principal. Aconteceu mesmo!
Mais legal do que confirmar, em Missão Cleópatra, que Gérard Depardieu nasceu para ser o Obelix no cinema, é descobrir entre os créditos Tanino Liberatore como o costume designer. Liberatore, aquele, do RanXerox.

29.10.02

Oração para Drummond
Angelus Drummond Carlos, monacho et eremita urbanus: ensina-nos a recusar, em silêncio e em sigilo, o prêmio e o aplauso. Ensina-nos a viver no mundo sem ser mundanos.
(excerto da litania final na peça Os Órfãos de Jânio, de Millôr Fernandes)
"[Archie] Moore era para o boxe o que Nimzovitch tinha representado para o xadrez (É desnecessário dizer que [Muhammad] Ali era capaz de proporcionar um paralelo considerável com Bobby Fischer, quando se tratava de arrancar o oponente de dentro da pele)."
(trecho de A Luta, Norman Mailer, em tradução de Cláudio W. Abramo)
O arquiteto e o engenheiro
A troca de cartas entre Oscar Niemeyer e seu engenheiro calculista, José Carlos Sussekind, vinha recheada de promessas em seu bojo: simular o que teria sido a correspondência nunca iniciada entre Niemeyer e Joaquim Cardozo (o calculista anterior); escrutinizar a notória falta de funcionalidade da arquitetura de Niemeyer (O MAC de Niterói não tem espaço para guardar seu acervo, as salas de aula dos CIEPs não tem isolamento acústico, alguns prédios de Brasília ou são abafados ou mal iluminados), isso se o leitor tivesse a histamínia para ultrapassar as loas a Fidel, "amado por toda parte", porque "fez a revolução, um exemplo para todos nós", a Prestes, "exemplo mais perfeito de dignidade e patriotismo", ao "passado de luta" de Stedile e Brizola, a quem "devemos recorrer", às queixas relativas à "campanha existente contra Stalin", "grave e difícil de conter" ou a sua assinatura, ainda que constrangido, num manifesto em apoio à guerrilha colombiana (ligada ao narcotráfico). Trata-se de um daqueles diálogos arquetípicos entre duas personalidades antagônicas -- criador e executor, dionisíaco e apolíneo, radical e ponderado -- que, no entanto, se completam.

A coerência política de Niemeyer torna-se mais decifrável à luz do perfil psicológico que se emana na leitura das cartas. É a mesma imobilidade de convicções que o faz rejeitar o dogmatismo da escola Bauhaus, ou dos ideais de beleza clássicos, preferindo buscar inspiração nas formas sinuosas da paisagem e da natureza -- "o que eu não concordo é com as regras que então se estabeleceram como controladoras da beleza, como as de regularidade, simetria, seção de ouro, etc. A beleza de uma obra de arte não pode ser apreciada em função de números, mas sim pela força criativa que a deve caracterizar." -- que se manifesta na afirmação marxista do homem como instrumento capaz de reverter as desigualdades sociais a partir de movimentos revolucionários. Ou seja, sempre o apego ao básico, ao despojado, ao informal: "Já me cansei daquelas fachadas [da Renascença italiana] a se repetirem cheias de colunas e arcos, eu, que tanto gosto de ver uma parede lisa, externa, branca, como em nossa arquitetura colonial". Vivendo e envelhecendo ao longo do século XX, é compreensível o crescimento do modo de ver a vida pessimista e materialista (no sentido de agnóstico e ateu).

A Sussekind cabe não apenas o papel acessório de não deixar a peteca cair; tem a responsabilidade de conter o sentimento de "pessimismo que envolve e que a idade agrava" o velho arquiteto -- e o faz com presteza, seja na pesquisa das Cartas da Inglaterra, onde prova o teor anti-colonialista de Eça de Queiroz, seja nos trechos da entrevista em que o ex-presidente Geisel mostra seu lado mais nacionalista. Cabe a Sussekind uma particular bola dentro, quando questiona a exagerada dimensão dos custos de implantação do Museu Guggenheim no Rio (300 milhões de reais, contra os 5 que custou o MAC), e observa um equívoco conceitual na sua futura localização: "...querer considerar o local (a Avenida Rodrigues Alves) como algo conceitualmente similar a projetos de reabilitação urbana executados em Boston, Naltimore, Nova York e São Francisco...Nessas cidades...a área utilizada era imediatamente adjacente...ao centro histórico ou a região...de completa infra-estrutura urbana que...alavancava a intervença urbana...no Rio...esta deveria ser...a Praça XV." Premonitório em 9 de setembro, chega a manifestar "preocupação com o uso poítico de seitas religiosas, transformando-as numa espécie de ovo da serpente"

Sussekind conversa de igual para igual, trazendo à tona histórias saborosas, como a da rápida construção do Sambódromo, quando "uma junta prevista em projeto...chegou a ser interpretada...como uma perigosíssima rachadura nas colunas, a traduzir risco imediato de ruína...", e foi necessária uma prova de carga com barris cheios d'água para atestar a segurança das arquibancadas. Motiva o debate e as lembranças sobre um sem-número de projetos, desde a concepção às dificuldades de implantação (Caminho Niemeyer, MAC de Niterói, Museu Nacional de Brasília, Igreja da Pampulha, o Ministério da Educação). "É preciso não ter medo do monumental, dizia Le Corbusier. Nunca recusei esse conselho", afirma Niemeyer. Particularmente interessante também é o resumo que Sussekind faz da evolução na arquitetura de templos católicos, por ocasião dos cálculos da catedral de Niterói:

O domínio da cúpula criou as primeiras basílicas, sendo o limite máximo arquitetural possível no primeiro milênio; os arcos ogivais, acoplados às peças inclinadas de
travejamento, trouxeram as belíssimas catedrais góticas; a Renascença voltou às cúpulas (tornando-as mais elevadas) e nos deu Florença e São Pedro; o barroquismo pouco inovou, apenas enfeitou (?); o neoclassissismo gerou coisas tão ruins quanto a hiper-brega Madeleine. Usando a imaginação e o concreto...nos traz
[a Catedral de] Brasília e agora, essa nova [Igreja] pensada para Niterói

Nos momentos em que Niemeyer & Sussekind se entregam a elucuborações descompromissadas sobre método de criação, em que se evidencia a "boa relação que deve existir entre o arquiteto e o engenheiro. Um, usando sua técnica em toda sua plenitude; o outro, respeitando-a, mas livre para todas as suas fantasias", é que esse modo de expressão que me é tão caro -- não me refiro aqui às missivas, mas ao papo -- melhor se manifesta, como na provocante discussão sobre o avanço técnico do Palácio dos Doges, em Veneza, ou quando deixa fluir livremente a memória, em insuspeitado conteúdo human na lembrança de uma dedicatória em um livro de sua estante, ou do diálogo com os espanhóis que lhe solicitaram um projeto de mobiliário urbano:
- O senhor trabalha muito, não é?
- É verdade. Devia ter trepado mais e trabalhado menos.

28.10.02

Quando vi a figura do Dr.Megavolt brincando com eletricidade entre duas imensas espiras de Tesla no Burning Man, não pude imaginar que o cara até contava sua história numa página da internet!
"Take Galactus and the Silver Surfer. On the one hand they represent the father and the rebellious son, but to us they symbolized all the terrible dread hovering over us in the 1960s, and the strange mixture of idealism and power needed to stand up to the Establishment. For kids with only an inkling of the Vietnam War and the resistance to it, Galactus' tale seemed pregnant with hidden meaning. What was that mind-blowing trip the Human Torch undertook to save Earth but a consciousness-altering psychedelic experience?"
O resto está aqui.
Do livro do Niemeyer e do Sussekind:
"Um dia, fui informado de que um colega nosso enfrentava dificuldades em Constantibe e, ao encontra-lo, indaguei: Como vai a vida?, Tudo bem disse-me. E as mulheres?, perguntei sorrindo. Duas, respondeu ele, otimista, com dois dedos no ar."

27.10.02

Mais Drummond:
Sou um poeta brasileiro, não dos melhores, porém dos mais expostos à galhofa. O poeta é um ressentido. Mas eu não serei o poeta de um mundo caduco. Também não cantarei o mundo futuro. Meu verso é minha consolação e minha cachaça. Meus olhos têm melancolias. Minha boca tem rusgas. De tudo quanto foi meu caprichoso passo na vida, restará uma pedra que havia em meu caminho (famoso verso seu). Tenho apenas duas mãos e o Sentimento do Mundo (título de um de seus livros).

Carlos Drummond de Andrade foi homenageado em tema de samba-enredo da Estação Primeira de Mangueira, efígie em nota de 50 cruzados e ganhou um depoimento detalhado e tocante aqui.

26.10.02

Algumas curiosidades para preparar a comemoração do centenário de Carlos Drummond de Andrade:

- No começo da carreira jornalística em Minas Gerais, dentre os vários pseudônimos com que assinava, havia este: Mickey. Em homenagem ao ratinho de Walt Disney.

- No começo da década de 70, Henfil enterrava em seu cemitério dos mortos-vivos toda personalidade que fosse abertamente favorável ao regime militar. Depois, num surto de radicalismo, passou a enterrar também qualquer um que não se posicionasse contra o regime, tipo: Clarice Lispector. Quando decidiu enterrar o poeta mineiro, Ziraldo protestou: "Endoidou!? Até o Drummond!?". O mineiro acabou poupado da lápide com seu nome.

- A melhor paródia de um poema do Drummond é a turma de Casseta e Planeta:
Mundo, mundo, vasto munda
Se eu me chamasse Raimunda
Seria feia de cara
mas boa de rima
Dedicatórias
"Para o Carlinhos Oliveira perder no primeiro botequim"
(de Stanislaw Ponte Preta, no livro Tia Zulmira e Eu. O botequim em questão foi o Zepelim)

"Querido Oscar, que negócio é esse de comprar livro meu? Com amizade e admiração, Carlos"
(de Drummond, no seu humor típico, a Niemeyer)

"O papel é esta porcaria; a literatura não é muito melhor"
(Graciliano Ramos, na época do racionamento de insumos, na II Guerra Mundial)

25.10.02

Desde a ida ao Jardim Botânico não parei de pensar em como o estilos arquitetônicos e decorativos art-nouveau e neo-classicismo se integram bem à natureza; o primeiro, pela inspiração em formas e texturas, em modo de homenagem/recriação; o segundo, pelo contraponto entre a aparente confusão da exuberância natural e a rigidez dos padrões clássicos de beleza. Não é de se estranhar que os jardins, onde tenta-se, através de intervenção externa, organizar elementos daquele (plantas, riachos, pedras) de acordo com as regras deste (simetria, proporção, harmonia), tivessem ganho tanta importância nas moradias e cidades ao longo da história.
Não contente em se chamar Cenoura Flamejante, ainda tem um enorme arsenal de gadgets.
Torcida politicamente uniformizada
Acabo de escutar na TV que uma rua de Curitiba será bloqueada para dar espaço às “torcidas organizadas dos candidatos ao governo do Estado”. Precisa dizer mais?
Essa veio d'O Polzonoff
Jânio Quadros se elegeu presidente em 1960 com uma campanha cujo símbolo era uma vassoura, na promessa de varrer a corrupção neste país. Por mais que nossos olhos céticos de hoje se recusem a admitir, não era palha dele: criou-se um sentimento de expectativa real em todo o país em relação à onda de moralidade alavancada (e surfada) por Jânio. Na peça "Os Órfãos de Jânio", escrita por Millôr Fernandes em 1978, quatro personagens falam sobre como os ocorridos da década de 60 interferiram em suas vidas; um deles é uma funcionária pública fanática por Jânio, que transmite exatamente esse sentimento quando conta que, logo depois da posse, o material de escritório parou de sumir das repartições públicas. Não era exagero; naquela época o acesso a bens de consumo era muito mais restrito, não havia indústria e a prática comum entre certos funcionários da Pan Air era o contrabando de relógios, isqueiros e coisas assim. Nas primeiras semanas de Jânio em Brasília, como que por
um passe de mágica, essa prática simplesmente parou -- todo mundo temia que acontecesse alguma coisa com quem fosse pego. Depois, aos poucos, o ritmo se reestabeleceu. Na peça, a funcionária diz que, em outros tempos, até ar condicionado estava sumindo. É de se perguntar se, quando Jânio legislava proibindo briga de galos ou lança-perfumes, não estava respondendo pessoal e diretamente ao péd d'ouvido desse tipo de eleitor.
Nesta eleição, pode-se dizer que uma maré sentimentalmental de igual intensidade varreu o país, motivada pelo PT, alavancada pelo Duda Mendonça e surfada pelo Lula, criando espectativas talvez tão vigorosas quanto às de 22 anos atrás. Resta saber o que vai acontecer quando as forças ocultas se manifestarem.

22.10.02

Eu fico muito contente em descobrir uma notícia assim:

M.I.T. planeja disponibilizar o seu material didático gratuitamente na rede.

O nome do projeto é OpenCourseWare@MIT, e inclui notas de aula, resumos de curso e listas de leituras. Segundo o chairman Steven Lermen, prover livre acesso à informação dos cursos "seguiria na tradição do M.I.T. e das melhores escolas norte-americanas de livre disseminação de materiais educacionais e inovações pedagógicas."

O presidente do M.I.T. Charles M. Vest adicionou, "vemos isso como a matéria-prima que apoiará a educação globalmente, incluindo inovações no próprio processo de ensino e aprendizado."

Estima-se que o custo, ora em debate, de lançamento e manutenção de aproximadamente 2000 cadeiras em 10 anos de projeto OpenCourseWare seja de U$100 milhões.

Alguém aí ainda tem dúvida de que a informação deve ser livre? Alguém duvida de que a informação precisa ser livre?
A grande manha é que a estrutura das lógicas do Sampaio -- lógica da identidade, lógica da diferença, lógica clássica e lógica dialética -- é uma perfeita lâmina de Occam.
É ruim, mas é meu
Remexendo nos guardados, encontro um fanzine de 1984 com entrevista de Monteiro Filho, autor da primeira Hq de aventura seriada brasileira (e uma das primeiras do mundo, já que Os Aventureiros da Atlântida foi publicada em 1934) e ilustrador de suplementos jornalísticos. Depois de longamente relembrar dos tempos de redação, Monteiro solta essa:

Eu disse que venho de uma época em que o sujeito dizia: 'é ruim, mas é meu'. Copiar era horrível.

-- Copiar não era escola, como hoje?

Tanto que o Jayme Silva, cenógrafo, era esculhambado por todo mundo porque só copiava.


* * *

No final da década de 70 a editora Vecchi começou a publicar uma linha de quadrinhos de terror, inicialmente toda composta de histórias estrangeiras traduzidas. Com o o.k. do diretor, Ota, o editor, começou a comprar páginas nacionais, primeiro de nomes já consagrados (Flavio Colin, Julio Shimamoto, R.F. Lucchetti), depois, iniciantes de talento. Menos de 3 anos depois a linha era composta de dois almanaques bimensais de 160 páginas e duas revistas mensais finas -- e totalmente nacional. É curioso, lendo as seções de cartas da época, ver como a resistência incial dos leitores em relação aos desenhistas brasileiros foi quebrada através da qualidade dos roteiros e ilustrações.

Em qualquer entrevista que deu anos depois, Ota confessa que o que permitiu o desenvolvimento daquela verdadeira fábrica de quadrinhos (produziam-se 500 páginas por mês) foi o investimento em talentos emergentes e o tempo de maturação -- nem todo desenhista nasce pronto para publicar. Tivesse optado por ficar, confortavelmente, nos estrangeiros, o desbrochar de nomes como Watson Portela, Mozart Couto, Cesar Lobo demoraria muito mais tempo para acontecer, ou talvez nem aconteceria. Aconteceu porque se optou por investir no que era ruim, mas era nosso. E com o tempo, se tornou muito bom. E nosso.

* * *

Não canso de lembrar do Monteiro Filho e da linha de terror da Vecchi quando ouço certo tipo de argumentação política que se resume em substituir o que é ruim, mas é meu -- e com investimento e tempo, pode se tornar bom -- pelo que pode ser bom, mas é tudo igual.

21.10.02

Stay Free! Magazine: mais munição contra as grandes corporações & administração Bush; alguns artigos: as pataquadas do FBI no combate aos dissidentes; seis usos para um telefone celular; retrsopectiva histórica da propaganda anti-propaganda (achei que faltou alguma coisa da famosa série da Benetton, embora o tema não fosse exatamente esse).
Saudades da Esfera...

20.10.02

Odete Lara foi uma espécie de precursora, até por causa da idade, de várias mulheres que marcaram a década de 60: Leila Diniz, Regina Rozemburgo, Florinda Bulcão, e que serviram de paradigma da geração seguinte. Assim, não é de se surpreender que uma delas, Ana Maria Magalhães, tenha decidido transformar sua vida em filme.
Há mil odetes em Odete -- a atriz preferida do Glauber Rocha, a parceira de Oduvaldo Vianna Filho, a cantora de Vinicius de Morais, a aposentada que faz novelas na Globo, a estudante de budismo, a primeira atriz a sair nua na capa de uma revista masculina, mas a que será lembrada aqui é muito especial: a musa do Sig, o rato-mascote do Pasquim, que delirava divertidamente em devaneios de paixão platônica por sua musa, em tiras boladas por Ivan Lessa e desenhadas por Jaguar.
O céu que nos assusta
Na segunda parte do volume II da League of Extraordinary Gentlemen, Alan Moore começa a mostrar a que veio, apesar da história ainda ter andado pouco. O destaque evidente é a conversa íntima de Wilhelmina Murray e Edward Hyde nas últimas páginas. Mr. Hyde comenta que o fato dela ser a única pessoa a não demonstrar medo dele devia significar que ela já tinha encontrado alguma encarnação do mal muito mais assutadora; Ms. Murray apenas concorda, deixando os leitores a imaginar imaginando o que não seria um téte-a-téte com Drácula.
Voltando ao roteiro: as primeiras naves espaciais começam a chegar de Marte, mas como ninguém, na Inglaterra vitoriana, concebe a existência de vida em outro planeta, fica difícil articular qualquer resposta. "I was just looking at the sky... It just struck me that... well, that it won't ever be the same, after this. It can't be. I always thought of it as something that sheltered humanity, but now it frightens me, mr, Quartermain. It frightens me."
Às lágrimas
Estava eu muito tranquilo fazendo a ronda dos blogs e preparando um link para a letra do Hino de Júbilo ao Céu da Guanabara (já que não é bem do meu feitio colocar aqui letra de música), quando, na mesma TelescÓpica, me deparei com uma dessas coisas que resumem porque a gente continua pondo tempo e energia nessas coisas:

Homenagem TelescÓpica
Se alguém quer matar-me no Grou*, que me mate
na cara do gol.

*Grou é uma constelação do hemisfério austral, próxima ao Índio e à Fênix.


A homenagem me foi tanto mais emocionante por não ser segredo para ninguém que a série "Se alguém quer matar-me..." foi inspirada pelas variações telescópicas em cima de "Não chore não..." (com a qual colaborei), que atingiu memoráveis picos de hilariedade. Jean, Ale, Leo, parabéns pelos 2 anos e que o nosso céu seja sempre muito estrelado!
Faixa sendo puxada por aeroplano na praia, manhão de sábado: Vencemos! Eurico Não, Vasco Sim

18.10.02

Sorria!
Verão de 66: recomendado por um amigo, Timothy Leary vai ao encontro do professor Marshall McLuhan, em busca de conselhos que lhe ajudassem na sua campanha em favor do ácido lisérgico, ora em escrutínio na capa das principais revistas semanais (o LSD ainda não era ilegal). Leary já tinha escrito artigos e feitos depoimentos diante de comissões de inquérito. McLuhan saca de cara uma resposta: "A chave para seu trabalho é a publicidade. Você está promovendo um produto. (...) Associe o LSD a todas as coisas que o cérebro pode produzir (...) Sempre que for fotografado, sorria. Para dissipar o medo, você precisa usar a imagem pública. Acene para as pessoas para tranquilizá-las. Irradie coragem. Nunca proteste ou apareça com raiva. (...) Você deve ser conhecido pelo seu sorriso." De fato, é difícil encontrar uma foto pública da época em que Leary não exiba um fulgurante sorriso, o que mostra que ele aprendeu uma lição com McLuhan.
Ao que parece, Duda Mendonça também.
Beleza, então a boa do fim de semana vai ser o Lunário Perpétuo do Antonio Nóbrega e depois pegar uma sessão de teatro de Pessoas invisíveis, a adaptação de Will Eisner para o teatro e mais o que?
O primeiro eu já vi quando passou no teatro da Uerj; ali do lado, no Maracanã, estreiava Romário no Fluminense e deu para ouvir o urro da torcida quando ele perdeu um gol. O segundo, eu li, em quadrinhos, pela primeira vez, há exatos 10 anos.

Autenticidade tem preço?
Antes que alguém grite: eu sou o primeiro a reconhecer o papel dúbio de Antonio Nóbrega em relação à cultura popular; se ele foi o responsável por recuperar, resgatar e preservar um sem número de músicas, poesias e produtos da cultura popular, também o foi por manter intocado de um estado de coisas que o deseja imutável, por não querer corrompê-lo com a danada da influência estrangeira, acabando por defender o que em última análise é alienação, imobilismo, isolamento (sem a troca, que pode ser enriquecedora). Desnecessário dizer que o mentor dessa mentalidade é Ariano Suassuna com seu Movimento Armorial. Desnecessário dizer também que o talento cênico -- músico, dançarino, cantor, capoeirista, ator, clown -- de Nóbrega é plural, fazendo de cada apresentação sua, uma aula.
Protesto
Quero informar que, a partir desta data, este blog está em protesto contra a infame campanha de difamação dos belgas promovida pelo senhor Salvador McNamara. Não pudemos escutar calados os insultos dirigidos contra um povo que nos deu Brueguel (o velho e os filhos), Memlim, Hyeronimus Bosch, Victor Hugo e Magritte. Não podemos suportar calados a torrente de ignomínias e afirmações cretinas contra o cordial povo belga. No que depender de nós, continuaremos a defender o país que deu ao mundo as batatas fritas, o chocolate Leonidas e a cerveja trapista. E tenho dito.
Redundância
Etiqueta colada no meu teclado: "Para um uso cômodo e seguro, leia o Guia de Segurança e Conforto."
Haroldinho dixit e quem sou eu para discordar: Tipografia de verdade é isso aqui e estamos conversados. Adoro visual psicodélico. Segundo ele, disparado, o melhor link que já coloquei nesse blog. Participações especiais dos populares Lenny Bruce, Edgar Allan Poe e Alfred E. Newman em trabalhos de Wes Wilson, Rick Griffin, Victor Moscoso e outros bambas.

17.10.02

Da mega-série univitelinos:
- José Dirceu e o Silva, vizinho briguento do Pato Donald;
- Thomas Pynchon (adolescente) e Ronaldo Nazário (contribuição involuntária de um leitor anônimo)

16.10.02

Bip Bip
"Coitote, Homem Coiote conforme às vezes é chamado para distingui-lo do animal, a figura mitológica que viveu num tempo mítico, num tempo onírico, e todas as coisas aconteceram então. (...) Em termos do folclorista ele é um trapaceiro,e as histórias do 'faroeste' são as mais cheias de trapaceiros que existem. Está sempre viajando, é estúpido, e é um tipo mau. Na verdade, ele é terrível, um caso de polícia. Mas ele também faz coisas boas (...) Mas na maioria das vezes ele está fazendo diabruras (...) O Coiote nunca morre, ele é morto várias vezes, e logo volta à vida, e recomeça a viajar pelo mundo."
(Velhos Tempos, Gary Snyder, 1984, tradução de Eduardo Peninha Bueno)

Quer dizer, não bastasse a surpresa em descobrir que o desenho animado do Papa-Léguas e do Coiote era mitologicamente correto, ainda tive que lidar com o fato descobrir mais um ser mítico correlato na cultura nativa norte-americana do arquétipo do mensageiro, do deus das estradas e das encruzilhadas, manifestado na mitologia grega como Hermes, e no candomblé, Exu.
Adoro o jeitão camp de móveis dos anos 50, mas tenho que reconhecer que tanto a Pastil Chair como a Coconut Chair, a Phantom Chair ou esse tal de Panto Pop devem ser um bocado desconfortáveis...
"Napoleão foi derrotado pelos ingleses na batalha naval de Naufragar."
Quem não viu o primeiro episódio de Cidade dos Homens, ontem, perdeu essa e inúmeras outras tiradas de primeira, a melhor delas quando o Acerola explica a expansão napoleônica e os motivos da vinda da família real para o Brasil como se fossem uma briga de traficantes, e a Europa, um morro. A melhor coisa que saiu da Tv esse ano.
ying & yang
Devo ser a única pessoa que tem na mesma estante um livro do Oscar Niemeyer e outro do Olavo de Carvalho, ambos autografados. Viajo naqueles desenhos que o Niemeyer rabisca.

15.10.02

Se levarmos em consideração apenas glória esportiva, poucos nomes podem se ombrear ao de Pelé como atleta do século -- Mark Spitz, Carl Lewis, Michael Jordan, pouquíssimos em esportes coletivos. Mas se carisma e prestígio fora das quadras entrarem na conta, Muhammad Ali parece-me cada dia mais capaz de se emparelhar ao brasileiro. Henry Kissinger costuma contar que pararam a guerra civil na Nigéria para ver Pelé jogar. Muhammad Ali quase parou um país sozinho, quando negou-se a ir ao Vietnã. Teve o título mundial (o mesmo que havia ganho com 22 anos, o mais jovem campeão na categoria) e a licença para lutar cassados, vencendo um processo na Suprema Corte, o que lhe permitiu reconquistar por outras 2 vezes o título de campeão, contra todos os prognósticos.
Sou o feliz possuidor do livro The Muhammad Ali Reader, 1998, coletânea de textos produzidos ao longo de 4 décadas por A.J. Liebling, Tom Wolfe, George Plimpton, Gay Talese, Norman Mailer, Hunter S. Thompson, Joyce Carol Oates, entre outros. A maior parte foi condensada por fins editoriais, o que significa que eles escreveram mais, e mais de uma vez sobre Ali. Quantos livros assim sobre Pelé existem? Quantos poemas, ensaios, filmes, reportagens
literárias Pelé inspirou? É mais fácil nos lembrarmos de um documentário ou um poema de Paulo Mendes Campos sobre Garrincha do que sobre Pelé (mas isso também é culpa do nosso país em não preservar-lhe na memória o devido mérito, apesar de seu histórico de declarações infelizes). Com sua arte, Pelé foi capaz de romper fronteiras geográficas & ideológicas, teve o nome escrito em todos os halls da fama existentes e ganhou uma exposição comemorativa em seu aniversário de 60 anos. Ali ajudou toda uma nação a se olhar no espelho.
Ali é apenas um esboço da relevância do boxeador, em seu período mais dramático: a década compreendida entre 64 e 74. O Ali de Mann & Smith é muito mais calado, sério e introspectivo do qualquer imagem pública sua. Como biografia, deixa pontas soltas demais. Mais interessante será correr atrás das referências: Quando éramos reis, A Luta ou King of the world.
PROV0S: Provoque Alternativas
DataRafa informa: recentes e detalhados estudos, dificultados pela enorme monotonia da paisagem belga, identificaram que a maior elevação daquele país é o morrinho artilheiro do campo de futebol onde treina a seleção nacional. Já a segunda maior elevação é o morrinho artilheiro do campo reserva...
Se alguém quer matar-me com fuzil, que me mate no Estoril...
(versão sampleada da sugestão original do Rodolfo Padovan:
Se alguém quer matar-me com fuzil, que me mate no Rio... )
"Parece-me inconcebível que muita gente no mundo todo, malgrado as diferenças de idade, cultura e dotes naturais, reage com ímpeto especial, em certos casos até mesmo febril, aos artistas e poetas que, além da reputação de produzirem arte de alta qualidade, têm algo de extravagantemente Errado como indivíduos: um defeito espetacular de caráter ou de comportamento cívico, uma desgraça ou vívio supostamente românticos -- extremo egotismo, infidelidade conjugal, surdez, cegueira, sede insaciável, tosse mortal, fraqueza por prostitutas, certa parcialidade em favor do adultério ou do incesto em larga escala, queda comprovada ou não pelo ópio ou pela sodomia etc. etc. Deus tenha piedade dessas solitárias criaturas."
(isso é o que se pode encontrar abrindo-se ao acaso Seymour: uma introdução, de J.D. Salinger, na tradução de Jorio Dauster).

14.10.02

Se alguém quer matar-me de beleza, que me mate em Veneza...

(Eita! Até fiquei arrepiado com essa!)
O que realmente importa
(notinha pinçada do Globo de hoje):
Virou a maior farra o encontro de duas passeatas, ontem, na Praia de Ipanema.
Uma era da turma pró-Lula, puxada por Benedita. Outra, de Hélio Paulo Ferraz, candidato a presidente do Flamengo.
Quando se cruzaram, os petistas, que puxavam o jingle de Lula, pararam e todo mundo cantou junto o hino do Flamengo.

13.10.02

Quase tive um acesso de riso, visitando o Orquidário, ao lembrar da história de um amigo que, toda vez que queria ficar com uma garota, levava-a para o Orquidário do Jardim Botânico. Anos depois, foi morar num país onde, desgraça!, não existiam orquídeas, não podendo haver, assim, orquidário. Depois de uns 8 meses sem dar notícia, chega um email para geral onde, depois de rápidas notas sobre a nova vida, ele nos conta que tinha descoberto um parque na cidade com uma ponte japonesa que era um achado...
Em tempo: é antiga a conotação sexual das orquídeas, que receberam esse nome do grego Teofrastos por achar suas raízes parecidas com testículos masculinos.
Encontrar um Espaço Tom Jobim perto do Chafariz Central, mais do que a justa recordação de um dos maiores amantes daquele parque, me trouxe à memória toda uma lista de pessoas que se inspiraram, copiaram ou se basearam na natureza para a composição de suas obras, além do próprio Jobim, Rubem Braga, Victor Horta, Antoní Gaudí, Claude Monet, enfim, gente cujo grande feito foi ter conseguido reproduzir artisticamente formas que existiam ao seu redor.
Visitar o Jardim Botânico depois de muito tempo sem pôr os pés lá é pedir para ser surpreendido da melhor maneira possível: descobrindo que, ao contrário dos inúmeros documentários televisivos que teimam em só enxergar as palmeiras imperiais e as vitórias-régias, tem muito mais para se ver ali (obra e graça de inúmeros diretores, dentre os quais Frei Leandro, que, à sombra de uma jaqueira, comandou a abertura do lago artificial, hoje batizado com seu nome, e João Barbosa Rodrigues, que deu abrigo à esculturas e adornos), desde o recente Jardim Japonês a um sítio arqueológico completo, a Casa dos Pilões, passando pelo Memorial de Mestre Valentim (onde estão as primeiras esculturas em bronze fundidas no Brasil), o antigo Portal da Real Academia de Belas Artes ou o Chafariz Central, tudo preservado -- a palavra-chave aqui é patrimônio -- e bem sinalizado por placas art-noveau de ferro fundido, lembrando caules. Tudo em meio à exuberância de alas reproduzindo a região amazônica ou uma restinga. Einstein, em visita ao jardim, após ouvir uma preleção sobre as propriedades do jequitibá, abraçou e beijou aquele vegetal.
Aspas para o Nando:
[...] o mercado é uma moça fresca que tem um pai militar: um piscar de olhos errado e você estará em Buenos Aires.
Rápida pesquisa eleitoral blogueira:
Bernardo vota no Serra
Zamorim vota no Lula
Gus Erlichman vota no Serra
Cris Dias vai de Lula
Nando escolheu o Serra
Flavia Durante vota e fez até um blog a favor do Lula

Hiro não declara o voto; a Telescópica rachou, com Jean indo de Serra enquanto Ale e Leo vão de Lula, e o Nemo Nox paga para não votar.
DataRafa indica ainda dois blogs declaradamente contra a candidatura petista:
::: Anti-Lula
::: Página/18

11.10.02

Se alguém quer matar-me a qualquer hora, que me mate agora...
(Mais uma colaboração do leitor Rodolfo Padovan. Não disse que ele estava virando freguês?)
A imagem que a Patricia escolheu para encimar seu blog é do Shag, artista esmerado na estética Tiki, de quem o Hiro também gosta. Embora eu já conhecesse o coisas como o Tiki Room, ou os moais da Ilha de Páscoa, só fui saber que eles pertenciam à mesma família esse ano, e que o tal do Tiki até já atingiu status de cult e pop, apesar do acento irrecuperavelmente kitsh. Agora, "notável bola dentro" foi o termo que usei para descrever a sacada de um surfista, para quem as carrancas são o autêntico tiki brasileiro: olhos arregalados, dentes expostos, imagens assustadoras. Tudo a ver.
Sutil e simpático
Daniel Sansão elogiou e eu faço coro: é raro ver hoje em dia algum tipo de propaganda em via pública que não emporcalhe, quanto mais adorne a paisagem da cidade -- tema de meu interesse permanente. Como conjugar uma solução equilibrada que una as facilidades habitacionais do meio público (transporte, água e gás encanados, esgoto, pequeno comércio) às indispensáveis personagens naturais (parques, praças, árvores, jardins)? O mobiliário urbano, em particular, parece de alguma forma traduzir a essência de cada cidade, através de seus bancos de praça, orelhões, placas sinalizadoras; minha preocupação rendeu um daqueles textos que eu vou passar a vida revisando. A versão atual é essa.

10.10.02

Se alguém quer matar-me de calor, que me mate no Equador...
(Colaboração do leitor Rodolfo Padovan, que já está virando freguês.)
O diploma, enfim!
Essa discussão toda sobre ter diploma ou não que voltou à tona com a eleição presidencial me lembra muito a história do Art Spiegelman, que nunca se formou no curso de artes da S.U.N.Y. Binghampton (Harpur College), entre outros motivos porque já se iniciara profissionalmente, nunca conseguira concluir as cadeiras necessárias e tivera um colapso nervoso que acabou por conduzi-lo de ambulância ao hospital psiquiátrico mais próximo (L.S.D. demais).
Trinta anos depois, já capista oficial da New Yorker e ganhador do Pulitzer por MAUS, Spiegelman foi convidado pela mesma S.U.N.Y. para receber um PhD honoris causa. O discurso de agradecimento começava com a constatação de que, enfim, ele conseguira concluir o curso e ganhar o diploma, já que nunca participara de uma cerimônia de formatura como aquela. Tal como um estudante, Spiegelman contou que precisara virar a noite encerrando um trabalho para conseguir o canudo -- no caso, o próprio discurso...
O Mundo Perfeito faz jus ao nome e inicia uma republicação de tiras do Fradim, quadrinho responsável em grande parte pelo nome do Henfil, atualizadas toda semana. Obrigatório, sobretudo para quem não conhece o livro da Geração Editorial.
Ela era daquelas pessoas que, quando quer apagar uma linha inteira, não aperta uma vez o [Backspace] e fica segurando; aperta várias vezes o botão, apagando caracter a caracter, até o começo do parágrafo.

9.10.02

Depois de se mudar para um provedor na Eslovênia, e retirar do ar a entrevista com aquele VJ, o Cocadaboa teve que mudar seu logo por conta de um processo. Fazer humor pode se tornar uma atividade extremamente sem graça, às vezes.
MauVal anda arretado. No sábado:

o primeiro mundo é uma gracinha mas tudo já está sedimentado e resolvido. quando eles despencam aqui, no meio da "mulambalização" ampla e irrestrita, dão de cara com uma realidade absolutamente tentadora.

Na segunda-feira (sobre a eleição para o governo do estado do RJ):

vai se acostumando...
mais quatro anos de populismo rasteiro.
mais quatro anos com a bandidagem ditando as regras.
mais quatro anos em que templos evangélicos ocuparão o espaço de teatros e cinemas.


a gente merece!!!
Barba, cabelo e bigode (aparadas pelo Samurai do Fotoxope. Se ligue nos comentários)
Domingão eleitoral de sol a pino, mais de 30 graus na segunda e ontem, a onda de calor: o inverno ainda nem terminou e o verão já começou nesse país.

7.10.02

Dominique, ou melhor, Patrícia, volta a escrever depois de passar por uma, como esses jornalistas moderninhos gostam, repaginação no visual. Parecia impossível, mas ela volta ainda mais bonita, íntima, pessoal e interessante do que antes, e o que me deixa perplexo: sem perder a privacidade. Como ela consegue?!
Patrícia é titular cativa aqui Na Cara do Gol também por ter sido uma das 3 primeiras a anunciar o nascimento desse blog; junto com o Nando e o Jean, meus 3 reis magos. A eles, e ao Hiro, Rafa Azevedo, Haroldinho e a todos que cantaram a boa nova, meu sincero obrigado que não tinha ido antes.
Para quem lê jornal de lupa: uma notinha hoje dando conta da futura estréia, na Fundição Progresso, de uma peça baseada em Invisible People, de Will Eisner, mini-série em 3 partes publicada pela primeira vez há exatos 10 anos. Também foi na Fundição Progresso onde consegui um autógrafo de Will Eisner, após uma apresentação da Intrépida Trupe. Oito anos depois, encontrei Eisner de novo, e contei-lhe do primeiro autógrafo; ele assoviou assustado, encrispou a testa, alisou a careca e arrematou:
-- Você não parece 8 anos mais velho!
Sugeri-lhe que dali por diante passássemos a nos encontrar a cada 8 anos...
Etnias
Quando te oferecem o audio-guia em espanhol porque não existe um em português, partem do princípio que a origem latina das línguas as fará suficientemente semelhantes para que quem fale português entenda corretamente o espanhol -- ignorando diferenças sutis porém relevantes para descozer o discurso -- mas, seguindo o mesmo princípio, vá sugerir-lhes que quem fala flamenco compreende bem o holandês, e preste atenção na cara feia que fazem...
Irritado com a incapacidade do grande público em entender roteiros dois dedos mais profundos que a tábua rasa, só de sarro, pus à venda explicações do final difícil de um filme, ano passado. Conhecesse o Metaphilm, onde levam um pouco adiante essa molecagem, não ficaria a fazer graçolas com o subtexto alheio. Se bem que, viagens à parte, sou da escola em que é possível sintetizar quase todo filme, e bem, com meras 4 palavras.

4.10.02

Se alguém quer matar-me bebum, que me mate em Cancun...
(colaboração da super-mega-leitora Ana Veras)
Meu amigo André Diniz, criador da Nona Arte, conta em entrevista porque merece o apelido de homem-editora.
Quem vai gostar de saber essa é o Mario AV: os 3 computadores disponíveis para envio de cartões virtuais no Museu Van Gogh eram todos os novos iMacs.
Interessante notar, aliás, como Van Gogh descobriu a cor, através da comparação entre seus sombrios primeiros trabalhos, na Holanda, e a fase francesa.
O que esses políticos estão precisando é de Simancoltm.
Poliglota
No caso de ser teletransportado para um lugar qualquer do mundo, agora ninguém mais tem a desculpa de não saber como se escreve o nome em japonês ou em código de barra. Se o teletransporte for no tempo, convém saber também em hieróglifos egípcios ou caracteres maias.
De todos esses, o único que o computador não faz para você é o maia, por causa dos muitos modos como um nome pode ser escrito, e porque certas consoantes como R, F ou D não existem em maia (assinar meu nome seria um grande problema lá!). Depois de quebrar a cabeça aprendendo a escrever em maia, pode-se relaxar jogando o popular jogo maia bul.

3.10.02

Por essas e por outras é que eu digo, o Sampaio é que tem razão, será sua lógica quinquinária hiperdialética o que nos redimirá. A lógica da diferença.
Não é toda hora que se encontra um blog bom de se ler, quanto mais dois. Em 168 horas descobri Danilo Amarar, que de New York narrou o retorno de Oscar de la Hoya aos ringues.
Se alguém quer matar-me amanhã, que me mate em Teerã...
Na verdade dizem que ACM pretende adquirir Caetano como criado. Espero que criado mudo!
d'Os Suspiros de Salvador MacNamara
Apropriado
O nome da plataforma que vai ocupar a posição e as funções da P-36, a maior semi-submersível submersa do mundo, é FPSO* Brasil.
Quem gosta dessas coisas é o Paulo Salles, para quem "blogs não são bem para ler, são para 'fazer a ronda' (prender em flagrante os criminosos, revistar os de feições ameaçadoras, mandar circular os que estão parados há tempo demais onde não deveriam)"
* FPSO = Floating, Production, Storage and Offloading
Vem cá, aquele zepelim que tinham posto no céu, não era para aumentar a segurança da população, hein?

2.10.02

O tempo passa rápido, mas sempre há um jeito de se ler 168 horas.
Soldados rasos franceses, nas trincheiras da I Guerra Mundial, produziam pequenos mementos -- aviõzinhos, cruzes, tudo o que desse para fazer com restos de balas, sobressalentes de armas e o que se prestasse àquele tipo de artesanato, para enviar aos familiares como amuletos durante o tempo em que estiveram no campo de batalha. Vêem-se alguns desses aqui.

Pescadores canadenses, nas longas temporadas de caça a baleias empreendidas nos mares do norte, no começo do século XX, passavam as horas vagas esculpindo ou desenhando imagens em dentes de cachalote, geralmente com motivos eróticos (a tripulação era completamente masculina), os quais eram negociados como relíquias quando do desembarque. Esses podem ser vistos aqui.
Se alguém quer matar-me de gripe, que me mate em Sergipe...
Didjeridoo é uma espécie de berimbau australiano: um instrumento musical popular com sonoridade irritante que todo mundo quer mostrar como se toca mas poucos realmente sabem manejar.
A probabilidade de se encontrar um australiano -- ou neozelandês, ou seja lá de onde for -- tocando um didjeridoo, enquanto acompanha batucando no chão com um toquinho (olhaí: é parecido com o berimbau até nisso de reunir melodia e percussão num instrumento só) numa rua de uma cidade turística qualquer do mundo hoje apenas é menor do que a de encontrar um quarteto de peruanos munidos de flautas de pan tocando El Condor Pasa.
Agora, em termos de instrumento musical chato, nenhum barra aquele que os belgas chamam de cornemuse, e os ingleses de bagpipe, a indescritível gaita de foles.

1.10.02

Se alguém quer matar-me do pulmão, que me mate em Milão...

(De um outro leitor anônimo, militante da Smokers for a Free Society - Latin American Branch.)