30.12.02

Botequim fechado.
Agora -- só ano que vem.
O resfunlengo desse fole não é mole
Todo mundo aqui se bole
Com o seu resfunlengar
Nota da redação
Depois de mais de 15 dias sem dar sinal de vida o Blogger resolveu atualizar a página. Resultado: overdose de notinhas hoje, acumulando tudo que tinha escrito nesse meio tempo. No começo até fiquei borocoxô, depois aproveitei para ir muito à praia, encontrar aquele pessoal que só dá as caras em fim de ano e fazer esses dois últimos textos, mais longos.

27.12.02

Radical Chic, dois pesos, duas medidas
Reli nesse meio tempo Radical Chic, de Tom Wolfe, e fiquei absurdamente impressionado em como o sentido original por ele pretendido naquele ensaio foi pervertido pelo Miguel Paiva ao batizar sua personagem de cartum com o mesmo nome.
Radical Chic é um dos mais belos exemplos (talvez o mais) de new journalism; Wolfe abusa de seu talento de repórter na descrição das reuniões sociais onde a nova sociedade neoiorquina dos anos 60 angariava fundos para movimentos de ativismo social em emergência, tais como os Panteras Negras ou os catadores de uva dos vinhedos californianos; rasga a verve ao analisar a psicologia dos emergentes da sociedade e conclui, afinal, de maneira suficientemente desabonadora para com seus biografados que

O Radical Chique é radical somente no estilo; no cerne faz parte da Sociedade e de suas tradições. A política, como o Rock, o Pop, o Cafona, tem sua utilidade; mas colocar em perigo o status pela nostalgie de la boue sob qualquer de suas formas seri inescrupuloso.

Já ao nomear sua personagem Radical Chic, Miguel Paiva diluiu as cores pintadas por Tom Wolfe, transformando o que era, no final das contas, uma crítica em algo a ser apreciado, algo... bonitinho. A Radical Chic de Miguel Paiva é politicamente correta: foi na passeata de impeachment do Collor, fez propaganda da camisinha, sempre se alinhou com as causas que comovem a classe média; é portanto uma herdeira do tipo de comportamento meio hipócrita cuja ferida Tom Wolfe cutucou ainda no nascedouro. Não deixa de ser mais uma prova da imensa capacidade nacional em comer, digerir e, para bem ou para mal, regurgitar conceitos estrangeiros, quase sempre com novos significados, não raro radicalmente diferentes dos originais.
Este texto foi bolado a partir de uma conversa com meu chapa João Marcelo.
O último número do Tom Strong, do Alan Moore, o # 3, veio que veio supimpa, acho inclusive que foi o que ganhou prêmios na época em que saiu. A estrutura da história é simples: uma série -- qual é o coletivo de pirâmides? -- de enormes estruturas arquitetônicas pré-colombianas aterrisa em Millenium City qual discos voadores e a cidade prontamente convoca seu campeão para... fazer a diplomacia. Dentro de uma delas ele descobre que trata-se de uma invasão de astecas vindos de outra linha temporal, onde seu conhecimento científico e bélico evoluiu a ponto de terem derrotado o invasor espanhol, tornando-se, eles, os astecas, colonizadores daquele e de outros mundos paralelos -- inclusive o de Tom Strong.

Os astecas high-tech veneram uma espécie de deus-holograma, na verdade um programa de computador ultra-sofisticado programado por eles mesmos para calcular a probabilidade de sucesso das invasões, que lá pelas tantas faz um trato com Strong, salvando-lhe a vida em troca da liberdade do jugo cibernético a que era submetido pelos seus programadores. Passado o clímax, Moore gasta o verbo ao explicar a manjadíssima situação em que um dos vilões muda de lado em troca de uma vantagem maior posterior citando o famoso Dilema do Prisioneiro, de von Neumann:

Dois membros de uma gangue são aprisionados. Cada prisioneiro é posto em confinamento solitário, sem meios de se comunicar ou trocar mensagens um com o outro. A polícia admite que não tem provas suficientes para acusá-los da pena principal. Eles planejam sentenciar ambos a um ano de prisão por uma acusação menor. Ao mesmo tempo, a polícia oferece a cada prisioneiro uma barganha Faustiana. Se ele testemunhar contra seu parceiro, ficará livre, enquanto o parceiro pegará três anos pela acusação principal. Oh, sim, tem uma pegadinha... Se ambos os prisioneiros testemunharem um contra o outro, os dois pegarão cada um dois anos de cadeia.

Ou seja, trata-se de um problema fundamentalmente de confiança: enquanto cada prisioneiro acreditar que seu parceiro permanecerá de bico fechado, sem o dedurar, ambos acabam pegando a pena mínima. É um problema típico da teoria dos jogos, uma das muitas ciências que von Neumann ajudou a desenvolver e que hoje encontra aplicações na economia, na administração, nas ciências políticas e por aí vai. John Nash, recentemente biografado no filme Uma Mente Brilhante, foi outro grande desenvolvedor da teoria dos jogos, cuja cronologia remonta até ao Talmud. Além disso, e por ter aplicado esses conhecimentos na estratégia política nos tempos da Guerra Fria, em pelo menos uma fonte von Neumann é citado como a inspiração para o Dr. Strangelove de Stanley Kubrick, a mais provável, tendo-se em vista que as outras citadas eram o futurólogo Herman Kahn e Henry Kissinger.

18.12.02

A Vida do Viajante -- Luiz Gonzaga / Hervé Cordovil

Minha vida é andar por esse País
Pra ver se um dia descanso feliz
Guardando as recordações
Das terras onde passei
Andando pelos sertões
E dos amigos que lá deixei

Chuva e sol
Poeira e carvão
Longe de casa, sigo o roteiro
Mais uma estação
E alegria no coração

Minha vida é andar por esse País
Pra ver se um dia descanso feliz
Guardando as recordações
Das terras onde passei
Andando pelos sertões
E dos amigos que lá deixei

Mar e terra
Inverno e verão
Mostro o sorriso
Mostro a alegria
Mas eu mesmo não
E a saudade no coração

17.12.02

Artigo interessante sobre as elogiadas cenografia e a fotografia do filme Madame Satã.
Como imaginava, parte do que aparece ali foi feita em casarões abandonados ou semi, a área é pródiga em prédios assim e sempre aparece nos projetos de "revitalização do centro antigo" que a prefeitura volta e meia faz. Infelizmente desde -- quando? Sempre?, o local esteve abandonado à própria sorte, apesar da beleza do casario e dos sobrados sobreviver à degradação urbana. O que uma restauração não faria...
Memória
Inaugurado em São Paulo o Museu de Artes Gráficas do Brasil, projeto do cartunista Gual (Gualberto Costa), em instalações do Arquivo do Estado de São Paulo, de cara logo com uma exposição do casca-grossa Laerte.
Além do óbvio porém pouco praticado hábito nessas terras de preservar, organizar, catalogar e expôr originais de charges, cartuns, caricaturas e histórias em quadrinhos (a maioria doação dos próprios artistas), vai rolar até impressão das palmas de artistas consagrados em cimento. Mais um lugar para eu visitar com alegria quando estiver por lá. Chéquiróuti, como diz o Enio.

16.12.02

Test drive: Empada
A inauguração recente de duas casas de lanche nas imediações totalmente devotadas à empada -- Casa da Empada e Empada Brasil -- não passou desapercebida ao meu radar, e desde então, candidato a gourmet das iguarias populares & de rua, não sosseguei enquanto não identifiquei o local mais apropriado para um mata-fome rápido. Para tal, pus-me a avaliar objetivamente, por meio de uma metodologia pessoalmente personalizada para este fim, a qualidade das empadas do quarteirão. Tal metodologia consistiria fundamentalmente no seguinte: em fim de tarde de não muita fome (fome demais atrapalharia a avaliação do sabor), seria feita a desgustação de 2 sabores de empada, necessariamente um salgado e um doce, a salgada sendo obrigatoriamente de frango, opção básica de quem tem pressa. Mais empadas poderiam nublar o gosto médio; menos, cairia-se no risco de polarizar a amostragem. A zerar o paladar, seria empregado o diurético e digestivo mate (gelado).

Quanto ao sabor
Talvez por esperar algo mais forte ou apimentado, não me empolguei com nenhuma das duas em particular, embora a Empada Brasil mostrasse ligeira vantagem. Já a massa da Casa da Empada aproximou-se mais da consistência ideal que combina firmeza na fôrma e se derrete na boca -- nesse quesito a Empada Praiana é imbatível. Na Empada Brasil, ela veio tão quente que foi servida num arranjo de madeira e preciso comer com uma colherinha.
Deliciosa a empada de maçã doce da Casa da Empada.

Quanto à estratégia comercial
Adaptada a esses tempos massificados, a Casa da Empada roubou minha atenção com agressiva campanha na tevê, rádio, fundo de ônibus, outdoor e, atenção agora, página na internet. E ainda distribui imã para geladeira. Mais: o preço das bebidas é suficientemente inferior ao que se encontra na concorrência para deixar claro que o negócio ali é vender empadas, todo o resto sendo orientado nessa direção. Já a Empada Brasil se vale de um clichê ("o sabor de Petrópolis") diferenciando pela familiaridade onde não pode competir com a escala. O preço na Empada Brasil é mais barato ao ponto de, com o que se economiza a cada cinco, uma saísse de graça na Casa da Empada, que especifica preço pelo sabor, ao invés da Empada Brasil. Ambas oferecem a opção de encomenda para grandes lotes.

Comentários gerais
Acabei devorando mais rápido os exemplares da Empada Brasil, talvez por causa da alta temperatura interna, o que pode ter comprometido um pouco a avaliação do sabor, e impliquei com o fato da empada de banana ser aberta.
O aviso mais curioso estava na parede da Casa da Empada, algo como "Atenção: a maioria das nossas empadas contém azeitona COM CAROÇO. Cuidado ao mastigar". Na minha não veio azeitona, com ou sem caroço. Já na Empada Brasil veio azeitona -- sem caroço.
Nenhuma das duas caixas reclamou da ausência de troco.
A Empada Brasil também tem página na internet, mas nem nas lojas há divulgação do endereço.
Embora a Casa da Empada dê provas de estar atacando com voracidade o mercado, com venda de franquia e espalhamento tentacular, ele parece ser grande o suficiente para abraçar concorrentes, imitadores ou mesmo pequenos vendedores ambulantes.

Em breve, mais um sensacional duelo: Empada Praiana vs Dona Empada!
E de repente, não mais que de repente... Do repente!
Atrasado, este blog registra luto pelo sertanista Orlando Villas-Boas e acende uma vela por Luiz Gonzaga, em seu póstumo aniversário de 90 anos.

14.12.02

Um pouco de política para apimentar:
1) Gilberto Gil já estaria com um pé no Planalto para ocupar o Ministério da Cultura. Para quem acha a indicação absurda, não custa lembrar que "em 1998, o presidente Fernando Henrique Cardoso chegou a sondá-lo para a pasta do Meio Ambiente por causa da sua militância no Partido Verde (PV) e na Organização Não-Governamental Onda Azul". Entretanto, a pasta ainda "pode cair no colo do do ator Sérgio Mamberti". Já o Polzonoff leu não sei aonde que a Nélida Piñon iria ocupar o cargo.

2) Fred Leal manda avisar: Rosinha Garotinho pediu a cabeça de Aldir Blanc no jornal O Dia.
Normalmente quem tem a idéia não tem o dinheiro e quem tem o dinheiro não tem a idéia. Normalmente, também, eles não se entendem.
(Daniel Piza, em raro aforismo bem humorado)

13.12.02

E essa agora. O que me deixou mais impressionado é ser desenhado pelo John Severin, um daqueles caras que já desenhou de tudo na vida, esteve entre os fundadores da Mad, fez western, super-herói e o escambau e aos 86 anos está sendo pioneiro mais uma vez. Para um rápido e certeiro histórico de personagens saindo do armário, leia aqui.

12.12.02

Diálogos impertinentes (fofocado por Drummond)
Otto Maria Carpeaux: "Bom dia". Graciliano Ramos: "Você acha?"
Otto Maria Carpeaux: "Que tempo, hem, seu Graciliano. Vai chegar o dia em que vamos pedir esmolas". Graciliano Ramos: "A quem?"

-->> descaradamente roubado do Bruno Garschagen. Vontade é de afanar essa e as últimas quatro notas dele.
Modern Living: mais animações interativas feitas com flash. Lúdico e instigante, portanto adequado para passar tempo. A do cara fazendo embaixadinha com um crânio é de matar (veio do BrainWay).
Quando eu gosto de um diário, é por causa de coisas assim:

E eu adoro gibis e amendoim. Viveria bem no zoo.
Fazendo a ronda:
1) Julio Lemos dá um show rascunhando uma tradução decente para uma daquelas frases muito repetidas ainda que pouco compreendidas: The road of excess leads to the Palace of Wisdom (William Blake).

2) 10 loucos: esse é do Fabio Moon e Gabriel Bá. Dicas e pensatas sobre quadrinhos, de dois talentos da última safra. Tipo de coisa que se existisse e eu tivesse descoberto há 10 anos atrás ficaria maluco.

3) Neo Zeitgeist faz jus ao nome.

4) Mas que cabeça dura, Salvador McNamara! Depois de me acusar reincidentemente de legislar em causa genealógica própria, o senhor vem fazer pilhéria para cima do inconteste gênio belga acusando-o de ser o inventor do bilboquet -- e ainda por cima citando aquele peste do François Maltie, com um nome desses, ele sim, sério candidato a uma ascendência belga. Quanto a desempenhos sexuais questionáveis, foi o senhor, sr. McNamara, quem começou pedindo para se inverter a ordem e irmos de trás para frente na sua resposta: depois não me venha com ortodoxias para cima de mim... E ainda diz que o suspeito sou eu. Por fim, o senhor pergunta: "dentre todas as opções lúdicas, todos os divertimentos banais oferecidos pelo grande parque de diversões planetário, por que defender os belgas? (...) o elo perdido entre a bactéria e a planária, por que?". Ora, a resposta é muito simples, e apenas um espírito menor como o seu seria incapaz de enxergar a beleza e a excelência do gênio belga, um país para sempre colocado no escanteio, junto com aqueles países ou lugares cujo valor não é corretamente reconhecido pela História: o Canadá, o Uruguai, o Zimbábue, o Piauí, Aracaju, Bornéu ou o Quirguistão. Somente um ser de casta inferior não é capaz de admirar a evidente importância humana dessa geografia. Essas, portanto, sendo as bandeiras que o senhor me cobrou. Até mesmo por isso estou aqui torcendo para que seu pedido seja atendido...

11.12.02

E eu conheço essa figura. E mora perto de mim!
Funcionando em modo misantrópico agora:

_ "Ser lido é um negócio um tanto incômodo." (Paulo Salles)
_ "Ao longo dos anos, que são muitos, infelizmente, eu diria que tive, no máximo, estourando (e a maior parte estourou mesmo) uns seis amigos." (Ivan Lessa)
URRRRRÚÚÚÚÚÚÚÚÚÚÚÚÚÚÚ!

10.12.02

Nomadismo no século XXI
Esse projeto do Urbenauta, mencionado pelo Elesbão, lembrou-me extraordinariamente da Outdoor Piece do Tehching Hsieh, imigrante de Taiwan que passou uma ano rodando pela Ilha de Manhattan sem permitir-se entrar em nenhum lugar coberto -- dormiu sob marquises e abrigou-se debaixo de pontes, valendo-se apenas de um saco de dormir. Outdoor Piece é mais uma das One Year Performances de Hsieh, obras de arte compostas ao longo de um ano, com direito a declaração de limites e testemunha, executada por ele entre as décadas de 70 e 80 do século passado, cujo registro hoje integra um CD-ROM. A idéia lembra também do blog The Homeless Guy, originalmente o diário de Kevin Barbieux, que vive sem endereço fixo há 20 anos e hoje quase um projeto coletivo "dedicado a narrar as histórias e idéias dos que já viveram a experiência de ser sem-teto".
Enquanto o Homeless Guy aproxima-se do Urbenauta ao reunir anotações do cotidiano e procurar lugares que lhe dessem abrigo ou alimento, aquele procurando entender melhor a condição de sem-teto, este tentando descobrir o especial e o desconhecido em São Paulo, Tehching limita-se a registrar em mapas o trajeto percorrido cada dia e a quantia gasta além de aparecer em algumas fotos; só não conseguiu cumprir totalmente sua proposta porque esteve preso por algumas horas em meio ao seu périplo -- e a prisão era coberta.
Fui à exposição de outra One Year Performance, chamada Time Piece, na qual Hsieh tira uma foto a cada hora do dia, durante um ano, registrando a hora em um cartão de ponto a seguir. O resultado é impactante, perturbador.
Isso me deixa tooooooooontooo...
Isso tambééeeeem...
"Art couldn't put its own boot on - Cezanne put it on, Picasso tied the laces, Matisse buffed up the polish on it, and Duchamp took it off again." (Eddie Campbell)
Primeira impressão
"Conheci o Lima (...) lá no O'Malley's. Ele chegou do Rio de Janeiro (...), pegou um táxi e tocou direto pro bar. Apareceu de mochila nas costas e camiseta do homem-aranha. Em pouco tempo, já tinha dado em cima da garota por quem fui apaixonado, reclamado da fumaça do meu cigarro e dito que não bebia cerveja. Não sei como, mas acredite, viramos amigos.
Escreve de forma extremamente agradável quando fala de cultura e cotidiano, e é bastante complexo quando põe-se a filosofar.
Um dia pretendo visitá-lo no Rio, e dar em cima da garota que ele é apaixonado, reclamar da camiseta do homem-aranha e arrastá-lo prumas cervejas no Cobal."

(descrição do primeiro encontro, por Fabio Danesi Rossi.)

8.12.02

Rebola a internet brasileira
Soube recentemente que o CyberComix, melhor portal para se ler quadrinhos na internet brasileiro, não será mais atualizado. Espera-se ao menos que mantenham o valioso acervo no ar. Além dele, a revista Play vai perder sua versão em papel, o último número, o 6, já pode ser encontrado nas bancas. Já o sítio continuará recebendo novas matérias.
O que teria acontecido a Eddie Campbell's Bacchus?
Depois de 60 números o escocês teria jogado a toalha da edição independente? Felizmente não, para meu deleite. Eddie resolveu transmutar o velho gibi na revista Egomania, abrindo mais espaço para seus ensaios literários. O nome é uma brincadeira evidente com o fato das Hqs e os artigos de Eddie estarem cada vez mais auto-centradas nele. Mas nem sempre foi assim.
Não fossem um ou dois tropeços do distribuidor, teria a coleção completa de Bacchus, cujo lançamento me chamou a atenção pela mera proposta: atualizar aos nossos dias alguns personagens da mitologia grega. Bacchus, ou melhor Dionísio, deus grego do vinho e das tragédias, além de batizar a revista é o fio condutor das histórias, comemorando aniversário de 4000 anos dia desses. Mas não é por causa da pretensa onipotência ou divindade que nem ele nem Hermes, Poseidon ou Teseu, aqui conhecido pelo curioso apodo de Joe Theseus vão ter vida fácil: na primeira página da primeira história, Bacchus conversa com um colega de cadeia -- tinha sido preso na véspera por causa de bebedeira e arruaça. Na pena de Eddie os deuses gregos tem um comportamento estranhamente familiar, que correlacionei nesse artigo ao tratamento usado por Guilherme de Figueredo em Um Deus Dormiu Lá em Casa.
Se valendo de flashbacks, Campbell rememora os mitos clássicos gregos enquanto bola uma particularíssima versão para o que teria acontecido com os deuses depois, bem, depois que alguns deles morreram. Não é de espantar que o título da primeira aventura seja Imortalidade não é para sempre... É difícil focar qual seja a qualidade principal de Bacchus: o dinamismo da narrativa, a brilhante caracterização nos diálogos, a excelente ambientação, que consegue te transportar completamente para uma ilha do arquipélago grego apesar do preto & branco impresso em papel vagabundo ou a mais perfeita tradução do clima de bar, ou no caso, pub, em quadrinhos que já se viu. Melhor até do que o Zé do Boné.
Embora tenha produzido e compilado histórias em 9 álbuns completos, depois de algum tempo parece que Eddie sentiu não ter mais o que contar, e abandonou o personagem em função das história mais curtas & auto-biográficas sobre sua vida de pequeno editor, a meia-idade, família e as pequenas mágicas do dia-a-dia. Pérolas como Eternity ou Running A Publishing House Out Of The Front Room. Foi fundamentalmente essa mudança que levou ao nascimento de Egomania.
Mas a história não acaba aqui; antes de cair dentro de Egomania, Campbell também concluiu a saga de Alec McGuarry, seu alter-ego dentro dos quadros e editou a graphic novel How to be an artist, segundo o próprio, as histórias pelas quais quer ser lembrado & julgado. E ainda arranjou tempo para concluir a arte de From Hell e publicar a edição encadernada, um tijolaço de 5cm ali na estante (mas esse merece uma nota só para ele. Ou um artigo). Como se não bastasse, o cara é muito gente fina. Mandei uma mensagem para ele logo no começo elogiando o gibi e o cara não só publicou aquela, como também a segunda e ainda me mandou, autografada, lá das lonjuras da Austrália, onde ele mora, um número que eu não tinha -- autografado!

7.12.02

Vôo solo
Fui fazer as contas e concluí que já faz um ano desde que passei a considerar a existência de Alexandre Soares Silva em meu universo. Isto se deu única e exclusivamente por causa de seus escritos. Em mais uma soma tirada da ponta do lápis, concluí que nesses 365 dias não troquei sequer uma miserável palavra (via email, ICQ, pombo-correio, seja o que for) com ele, ainda que, em determinada ocasião, estivéssemos muito próximos de passar uma agradável noite em tertúlias (por conta de um amigo comum). É em situações assim que a gente pára e repensa se tem aproveitado de maneira digna e rica nosso tempo. Pois soube que o Alexandre rendeu-se, deixou-se contaminar pelo meme, levantou vôo solo e estreiou seu blog, batizado, num arroubo de originalidade, de... Alexandre Soares Silva. Gosto do estilo dele a ponto de não me importar muito com o que quer que ele esteja escrevendo, mas me congratulo em vê-lo compondo notas as quais assinaria embaixo. Tipo aquela da preguiça. Ou a outra, como irritar o leitor. Desejo-lhe sorte e persistência nesta nova empreitada.

6.12.02

Agoniza mas não morre
Nélson Sargento ponto com ponto bê-erre, autor dessa maravilha que só existe em samba.
Co-sanguíneos
Minhas fontes estavam corretas. O que explica um monte de coisas.
Quando a torcida chama de mercenário, eles não gostam...
Tá chegando!
Até domingo, um canal a cabo promete maratona Os Simpsons, com os episódios em que a família amarela visita o Canadá, a África e o Japão, tudo para pôr panos quentes na celeuma quando de sua visita ao Brasil, e mostrar que eles também zoaram outros países.
Apenas para bons entendedores: o filme cujo nome foi parodiado no título do episódio hoje também batiza uma agência de turismo. E atenção ao título do livro que Homer deixa cair sem querer na recepção do hotel.
Mas, ora, por que elas são imorais?
É incomum ver alguém dando a cara a tapa ao abordar a prostituição. Leia.

5.12.02

Action Comics #1 -- a primeira história do Superman totalmente digitalizada.
Eu... vou lhe dar a decisão
botei na balança... e você não pesou
botei na peneira... e você não passou.
Mora, na filosofia...


(a dica veio do meu xará)
Rivalidade
Me contaram que o futuro secretário de energia [do Estado do RJ], Wagner Victer, tricolor-doente, para que o filho tomasse horror ao Flamengo, deu a ele uma mamadeira, com o símbolo do rubro-negro, com umas gotas de limão. Até hoje, o menino faz careta cada vez que olha o símbolo do mengão. Não é cascata não, ele confirmou a história, com um certo orgulho.

Essa veio da Marina W. Único comentário: como se tricolor, depois do que passou, precisasse de mais motivo para desgosto...

4.12.02

Fazendo a ronda
1) Demorou: Elesbão e Foresti trocando raquetadas em rematch de tênis para Fotoxope. O vetê do último jogo confere-se aqui.

2) Julio Lemos é o tipo de cara que me recrimino por ter demorado tanto a me dedicar a ler. Sua lista de links recomendados dá o tom: Anti-State.com, Conservative Though, Biblioteca La Tradicion e um de arrepiar os cabelinhos de suvaco do chapinha Nando: PETA - People Eating Tasty Animals. Defende a alimentação carnívora, o cigarro de tabaco e chama o Cocadaboa de "site reacionário". Bom material para debate. Approposito, o blog se chama Capitalismo e tem, por subtítulo, bêtises d'un bourgeois chrétien.

3) Chirs Fernandes faz uma varredura do noticiário no Livre Expressão; Marcelo Träsel voltou de 6 meses de viagem e continua animado em suas Marteladas.
Ego surfing
Aliás, o grande problema de ego surfing é que sempre vai aparecer outro surfista com longboard maior que o seu -- e te cortando na onda, pela frente.
No meio do papo, sai assim:
- ... Apolíneo e Afrodisíaco...
(Pena só é depender de atos falhos para chegar numa dessas.)
Vem aí um CD-ROM com a evolução do RJ animada em CG.

3.12.02

Em meio aos Moais
"Logo após o navio fundear, nessa primeira visita, muitas pequenas embarcações a remo se aproximaram. Os pascoenses, extravasando alegria, apontavam para nós e perguntavam, em bom castelhano, 'você tem um amigo?'. Se a resposta fosse 'não', retrucavam 'então eu sou seu amigo'. Era um compromisso verbal, mas sem dúvida formal e efetivo, pois guardavam muito bem nossas fisionomias."
(...)
"O meu 'amigo', evidentemente como os demais 'amigos', não nos ajudavam de graça. O pagamento, entretanto, não podia ser em dinheiro, que pouco ou nada valia, pois pouco ou nada havia para comprar. A retribuição desejada era especialmente em roupas, mesmo usadas, ou em víveres não perecíveis."

"(...) nas missas aos domingos viam-se 'oficiais da marinha' pascoenses garbosos, com velhas sobrecasacas até com dragonas, calções brancos, polainas mesmo que descalços e, em casos especiais, com bonés armados de dois bicos. Viviam soltos pela ilha, sem compromissos maiores com trabalho, hora para dormir ou acordar. pareceram-me muito alegres e bastante independentes entre eles, pois ninguém era mais rico ou mais pobre do que seu conterrâneo, assim como ninguém mandava em ninguém. Talvez por isso fossem tão cordiais entre eles e os visitantes.
Jamais poderia imaginar que encontraria, nos tempos atuais, em algum lugar do planeta, mesmo de população reduzida, uma sociedade com tão nítidas características anárquicas e que tal sistema pudesse, de alguma forma, funcionar."

"(...) muito tempo depois (...) em lugar de muitas embarcações se aproximarem (...) simultaneamente (...) apenas avsitamos ao longe uma, com uns oito remadores e um timoneiro. Ficamos (...) intrigados quando a embarcação se aproximou, pois o timoneiro estava de terno e gravata, assim como os oito remadores vestiam igual indumentária (...) O mistério ficou ainda maior quando os remadores pararam de remar (...) e o timoneiro ficou de pé, assim como o navio escola (...) abriu fogo com seus canhões de salva (...)"

"Soubemos que [o timoneiro] se tratava do primeiro prefeito da Ilha de Páscoa nomeado pelo Governador Militar e os remadores eram, por sua vez, os primeiros policiais da ilha. O prefeito veio ao navio-escola, formal e oficialmente, pela primeira vez na história de Páscoa, para apresentar os votos de boas vindas ao comandante e sua tripulação. Informaram-nos que o Governador Militar, ao abrir o voluntariado para a formação da polícia, teve toda a população fisicamente apta como candidata. Disseram-nos que os pascoenses ficavam maravilhados pela possibilidade de dar uma ordem aos seus conterrâneos e terem que ser obedecidos. Não tinham uma idéia mais ampla da noção de mando, que começou a ser sentida quando o Governador Militar resolveu, após a criação da polícia, estabelecer uma determinada hora da noite para o recolher geral."

"Estive em terra (...) as atividades dos pascoenses estavam realmente mais calmas e ordeiras. (...)"
"Ao ver Páscoa desaparecer lentamente (...) pensamentos afloraram e até hoje (...) voltam: seriam os (...) pascoenses, com as mudanças, mais felizes? (...)"

(Visita à Ilha de Páscoa, Alte. Henrique R. C. Velloso, na Revista do Clube Naval # 321)
O professor Pasquale Cipro Neto saiu em defesa do português falado por Lula, em entrevista ao Globo e acabou ouvindo o que não queria do Augusto Nunes...
Tintin por tintim
Nem todo mundo sabe que Hergé utilizou uma equipe para auxiliá-lo na confecção dos últimos álbuns do Tintin, gente para escrever diálogos, desenhar os personagens, colorir -- há mais pesquisa do que pode transparecer numa história qualquer. Por exemplo, o Castelo de Moulinsart foi baseado num dos castelos do Vale do Loire (o de Cheverny), na França.
Bob de Moor foi o criador da antológica gag do esparadrapo que não desgruda do dedo do Capitão Haddock e recriava à perfeição a line claire de Hergé, ao ponto de ser difícil distinguir quem tinha feito o que. Pode-se saber de coisas assim na exposição permanente do Centre Belge de la Bande Dessineé, cuja página estava inexplicavelmente fora do ar.
"E eu lá sou mulher de olá ?!"
(Araci de Almeida, respondendo a um ex-namorado que lhe cumprimentara com um olá)

2.12.02

No carnaval passado, eu e meu namorado saimos fantasiados de Torres Gêmeas. Cada um com uma túnica quadrada e prateada até o pé, meio avião cravado na altura do colo em um celofane vermelho simulando fogo. Era carnaval, estávamos num bloco de rua (Barbas). A maioria das pessoas riu, mas algumas nos olharam com cara de reprovação, muitas pessoas morreram, que humor negro, blá-blá-blá. (imagina se essas pessoas soubessem que eu tinha pensado em levar uns "playmobils" presos em fios de nylon prá fazer a cena direito; só não levei porque meu sobrinho não quis me emprestar seus bonequinhos de Lego).

O protesto é sério e continua aqui.
Corrente de consciência semi-interativa intermitente e animada.
Achei no repositório de passatempos chamado Yeah, But is it art?, junto com o ultra-viciante ping-pong virtual e os inacreditáveis Mammonet e o Ajudante para Decisões Difíceis -- seus problemas acabaram!