31.1.03

Atenção todas as viaturas!
Roubaram teu carro? Cadastre neste serviço da Polícia Rodoviário Federal, que notificará mais de 400 locais de blitz.
Semaninha chuvosa e refrescada chega ao fim, verdadeiro parênteses na canícula de verão.
Cerebus # 1 totalmente digitalizado: os primóridos do gibi que mudou a cara do mercado da auto-publicação na década de 80.
Mais um roubado do Ruy Goiaba, que está organizando o bloco onde pretendo sair neste carnaval. É o último, prometo:

O FUTEBOL NÃO MORA NA FILOSOFIA
Por falar no Zenon, vocês devem se lembrar da época em que o Corinthians tinha o meio-de-campo mais filosófico da história do futebol brasileiro, com ele e o Sócrates, no início da década de 80. Se esses caras atuassem de acordo com os filósofos que lhes deram os nomes, seria uma tragédia.

Imaginem só: a cada preleção, Sócrates faria uma série de perguntas -para mostrar como o treinador é contraditório e estúpido- e seria acusado de corromper os jogadores mais jovens. Quanto a Zenon, discípulo de Parmênides, ele não correria jamais atrás da bola. Afinal, o movimento é uma ilusão.

30.1.03

Aê, Bruno! Não era você que estava querendo saber mais sobre William Faulkner?
Estatística
Das sete mulheres participantes da versão corrente do Big Brother, duas consideram Marília Gabriela "uma mulher inteligente", uma considera Fátima Bernardes, uma (adivinhem qual) citou Jurema Werneck e Lúcia Xavier, coordenadoras da ONG Criola e as demais não conseguiram lembrar de nenhuma referência.
Não sei, mas acho que quando o Maurício Valadares fala em mulambalização da cultura é a coisas assim que ele está se referindo...
Se tem uma coisa que eu gosto nesse mundo é de gente fina e educada.
Achei isso aqui nos arquivos do Ruy Goiaba. É uma versão high brow de uma piada com os The Beatles. Vale a pena ler de novo:

- Vamos lá no Bach, tomar um Chopin?
- Ah, só se for da Brahms.
- A gente podia pedir também uma lasanha Verdi. E aquelas outras comidinhas... como é que elas se Schumann?
- Será que o Beetho ven?
- Ele telefonou e disse que já Stravinsky, mas ainda Dvorák um pouco.

Como diria meu amigo João Marcelo, "alta cultura é alta cultura. O resto é o bonde do Tigrão".

29.1.03

Lisandro Gaertner, além de amigo das antigas, é um dos melhores redatores que conheci, apesar da parca produção. Dois frutos que consegui extrair: Como não ser publicado e A História das Notas de Rodapé. Hoje, sem dúvida, não incluiríamos aquela explicação ao fim do primeiro texto... Pois rendeu-se e agora dá vazão à verve no Oto come mocotÓ. Mais do que a verve, ele continua uma verdadeira usina de achados -- foi dele a indicação do Allan Sieber Talk to Himself Show: Barão do Posto Seis, a nova revista que o Ota vai lançar (Canibal), o filme de Mortadelo e Salaminho, um livro inédito do Bukowski a sair pela Record.
Na mosca!: para entender o que é essa tal de interface de usuário.
Alexandre, concordo contigo -- na vida real ninguém parece real mesmo. "Todos parecem caricaturas - às vezes muito agradáveis, mas caricaturas". Depois você vem com aquele papo de que "personagens esféricos são uma invenção de romancistas; na vida real todo mundo é plano. Quando há uma exceção e alguém nasce psicologicamente esférico, as pessoas ficam tão espantadas que escrevem livros sobre ele". E cita 3 exemplos, Samuel Johnson, Lincoln e Churchill. Também raciocino nesses termos, e também me lembrei de cara do Churchill como exemplo. Quando duas pessoas quaisquer se conhecem, é de praxe a troca de etiquetas: eu prego uma em você, você cola uma em mim. Não requer prática nem tampouco civilidade; até entre índios xavantes isso acontece. E raramente uma das duas pessoas foge à descrição da etiqueta ("não passe em ferro quente, mantenha à sombra"). O que lembra uma queixa do Polzonoff em relação aos livros do Gaspari, de que ele fazia tábua rasa ao descrever personagens bidimensionalmente em seus livros sobre a ditadura. É duro admitir, mas na maioria das vezes não é preciso mais do que 4 palavras para definir completamente uma pessoa, 95% dos casos obedece à regra do rótulo, depois só é preciso dar um polimento e lustrar. Só não se pode é perder a noção de que os 5% -- os que teimam em não se enquadrar nos rótulos -- existem e caminham por aí. Outro dia mesmo esbarrei num...

Outra coisa, não dava para adicionar aqueles links específicos para cada post? Assim a referência ficaria mais fácil do que eu dizer "em 26.1.03"...
Fazendo a ronda:
1) Carlos Vilela lista colunas, dicas e blogs de quem está morando ou já morou em NY.

2) ...se você força o link a abrir em outra janela o usuário é obrigado a ver seu site assim, não há outra opção. Mas, repetindo para fixar a lição: quem manda é o usuário, não é você. Se você deixar, então, o link abrir na mesma janela o usuário pode, se quiser, abrir em outra janela...

Interessante discussão sobre interfaceno Cris Dias. Apesar de considerar a maioria dos usuários desqualificada para lidar com tantas alternativas, concordo basicamente com o argumento destacado acima. Portanto, quem quiser abrir os links daqui em novas janelas, deve usar o botão direito do mouse a partir de agora.

3) Pequena biografia do Kerouac, com destaque para o apecto religioso de sua vida. Indicada pelo bamba Julio Lemos.

28.1.03

Allan Sieber, o criador do fanzine Glória, Glória Aleluia!, dono da Toscographics, autor do premiado curta-metragem Deus é Pai e cartunista da tira Preto no Branco também está fazendo um blog: The Allan Sieber Talk to Himself Show! Tiras inéditas, cartuns vetados da seção Zona de Risco (a melhor coisa do Pasquim21, fácil), humor ácido.
Segundo Haroldinho, Allan Sieber é o Didi Mocó hardcore.
Antropologia carioca
Enquanto o hábito entre as classes sociais mais baixas é o de se servir primeiro de feijão e depois de arroz, a classe média coloca sempre o arroz por baixo do feijão. Pode conferir -- é batata, ou melhor, é fejão com arroz, mesmo. Facilmente observável em grandes refeitórios e faculdades públicas. Ignoram-se motivos.
Manifesto da Associação Internacional Confeiteiros sem Fronteiras

Em função da ação realizada hoje à tarde, a Associação Internacional Confeiteiros sem Fronteiras vem a público dizer que:

Repudiamos a confusão promovida pelo Partido dos Trabalhadores que quer fazer crer que o nosso movimento, o movimento dos movimentos, pode ser representado ou encarnado em algum tipo de governo. Viemos à público dizer que a onda que levou à eleição do PT não é, de forma nenhuma, a mesma da ascensão do movimento contra a globalização capitalista. Nosso movimento não tem líderes ou representantes. Ninguém pode falar em nosso nome. Se alguém em Davos 'representa' o movimento, somos nós mesmos, os milhares que ocupamos as ruas de Genebra em protesto contra a reunião de banqueiros, empresários e governantes que o PT legitimou.

A esperança de mudança que trazemos não pode uma vez mais ser cooptada e frustrada por políticos e partidos políticos que querem se promover às nossas custas. Dessa vez vamos fazer as coisas de maneira diferente.

No espírito de Larry, Curly e Moe, saudamos o político José Genoíno.
¡Que se vayan todos!
Um mundo sem líderes é possível

27.1.03

Desejo de voar? Voe. E não deixe de subir até o fim da estratosfera nem de interagir com os outros voadores.
Parabéns, São Paulo, pelos 449 anos!
E caprichem na preparação da festa dos 450, anos que vem! É claro que não consigo deixar de comentar o que aconteceu quando o Rio fez 450 anos, em 1965 -- apesar d'eu ainda nem ser nascido. Entre as comemorações, foi feito um filme, Crônica da Cidade Amada, com uns 12 episódios, todos crônicas de Drummond, Paulo Mendes Campos, Sabino, Rubem Braga, adaptados para o cinema por Millôr Fernandes, que faz uma ponta no conto em que o Oscarito aparece, Receita de Domingo. Assisti na cinemateca do MaM, numa sessão de impacto devastador, ao fim da qual o clima de fraternidade era tanto que os espectadores só faltaram se abraçar e beijar. Além do filme teve um livro grosso, daqueles que ficam em pé sozinhos, acho que o nome é Rio de Janeiro em Verso e Prosa, com excertos de simplesmente todo mundo que escreveu sobre a cidade, diga um nome e ele está lá, não tivesse a seleção sido feita por Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade (um pernambucano e um mineiro, ironia?). Em suma: olha a responsabilidade!

Errata: P.C. Barreto me corrigiu nos pitacos: não foi no aniversário de 450, mas no de 400 anos da cidade. O que não diminui a responsabilidade do evento -- agora, para nosotros também...

26.1.03

Comments to the people, right on!
Relutei um bocado em disponibilizar uma seção de comentários para leitores e visitantes, dada a minha experiência com fóruns abertos na internet, mas é com felicidade que comunico a quebra das minhas resistências. Alô alô, seu Enio, alô alô, seu Danilo: está valendo. Quem se desloca, recebe; quem pede, tem preferência.
As últimas duas entradas são trechos de Na Trilha de Adão, o livro de memórias de Thor Heyerdahl, escrito aos 84 anos (na tradução de Leonardo Silva Pinto). Como ele veio a morrer com 87, pode-se dizer que é a suma de sua sabedoria & filosofia. Como os excertos abaixo, há dezenas, centenas até, no livro, e me descubro cada vez mais adepto desse estranho esporte de recortar e descontextualizar trechos de livros, tão apropriado a internet. Eleger Heyerdahl um dos maiores aventureiros do século XX só não é mais adequado porque o rótulo acaba ocultando a importância das intrincadas teorias científicas que mudaram a maneira de ver as migrações no Pacífico, provadas à bordo de jangadas de junco, pau de balsa e bambu.
Verdadeiro desperdício
"Liv já havia conquistado um lugar no coração de minha mãe, para quem era muito mais tranquilizador, à imagem sedutora de nativas dos mares do Sul, que eu me casasse e levasse Liv comigo na viagem [para as ilhas Marquesas].
Com meu pai seria um pouco mais difícil. Com o pensamento focado nas mesmas nativas, ele achava que viajar para lá casado seria um verdadeiro desperdício. Ele concordou em ajudar a financiar a viagem, ainda que para um lugar tão incomum e distante. O casamento, no entanto, deveria aguardar meu regresso e um emprego fixo."

Revolução
"Quem sofre o infortúnio da fome não recisa de motivações políticas quando resolve arriscar-se a seguir os passos de líderes revolucionários, atendam eles pelo nome de Fidel Castro ou Joana D'Arc. Estômagos satisfeitos nunca serão capazes de fazer uma revolução."

O sujeito que mais admirei
"Finalmente nós, graduados sargentos, fomos enviados à escola de pára-quedismo.
No nosso mais íntimo estávamos todos apavorados quando nos perfilamos diante do avião e o tenente Rorholt nos relembrou que dali em diante tudo o que fizéssemos deveria ser de livre e espontânea vontade. O sujeito que mais admirei foi o que reconheceu sua fraqueza, saiu da formação, não ousou continuar e afirmou: 'Não dá para mim'."
Schopenhauer no estrume
"Eu saí um pouco à minha mãe também. Do lado materno havia certa tendência na direção oposta. Aversão às cidades. O irmão mais velho de minha mãe estudou teologia para se tornar pastor no interior. Era um sujeito extremamente distraído - a Noruega ainda era parte do reino da Suécia - e, cada vez que unia as mãos para iniciar um culto, ele dizia: "Pai Nosso, que estais na Suécia...". (...) Dois outros irmãos de minha mãe estudaram teologia na Alemanha. Voltaram à Noruega influenciados por Rousseau e logo compraram um pedaço de terra para tocar cada um sua fazenda, nas florestas do sopé das montanhas Sylene. Um desistiu do negócio, o outro não. Minha mãe contou-me certa vez que que recebera uma carta de um deles relatando que lia Schopenhauer no alto de um monte de estrume."

Decepção
"Certa vez um circo chegou na cidade e todos corremos para conhecer de perto um negro. A decepção foi grande quando percebemso que a palma de suas mãos era branca e toda a turma concordou: aquilo não devia passar de um truque."

24.1.03

Norman Mailer aos 80 anos: still crazy after all those years?
Jantar excelente
"Cuidadosamente pus de lado o garfo e Jorge narrou sua história. Há tempos vivia ele com a mulher num posto avançado na selva, bateando ouro e comprando todo ouro de outros bateadores. O casal tinha, na ocasião, um amigo nativo do lugar, que trazia com regularidade sua cota de ouro e a barganhava por outros objetos. Um dia esse amigo foi assassinado na floresta. Jorge seguiu a pista do criminoso e ameaçou matá-lo com um tiro. Ora, o assassino era um dos tais suspeitos de venderem cabeças humanas em miniatura, e Jorge prometeu poupar-lhe a vida se ele lhe entregasse imediatamente a cabeça. No mesmo instante o indivíduo exibiu a cabeça do amigo de Jorge, agora do tamanho do punho de um homem. Jorge quase ficou fora de si ao rever o amigo, que era o mesmíssimo, a não ser que se reduzira àquele ponto. Muito comovido, levou para casa a cabecinha e mostrou-a à sua mulher. Ao vê-la, esta desfaleceu, e Jorge teve de esconder o amigo dentro de uma mala. Mas havia tanta umidade na mala que a cabeça se cobriu por camadas de mofo, obrigando Jorge a tirá-la dali de vez em quando e pô-la a secar ao sol. Amarrou-a jeitosamente pelos cabelos num coradouro, mas a mulher de Jorge desmaiava toda vez que a via. Um dia um ratinho conseguiu entrar na mala e deixou o amigo muito maltratado. Jorge, penalizado, enterrou-o com todas as formalidades num buraco aberto ao ar livre. Enfim, concluiu Jorge, tratava-se de um ser humano.
- Jantar excelente -- disse eu, para mudar de assunto."

Trecho de A Expedição Kon-Tiki, escrito por Thor Heyerdahl em 1948 (tradução de Agenor Soares de Moura)
O resto é água sem gás
Vou atravessar o Pacífico numa jangada de madeira para provar a teoria de que as ilhas dos mares do Sul foram povoadas por gente vinda do Peru. Quer ir também? Não garanto nada, a não ser uma viagem gratuita ao Peru e de ida e volta às ilhas dos mares do Sul, durante a qual V. terá boas condições para exercitar suas habilidades técnicas. Resposta sem perda de tempo.

Foi com a singela carta acima que Thor Heyerdahl fez o convite para dois conhecidos seus integrarem o que ficaria conhecido como a expedição Kon-Tiki. A primeira resposta, de Torstein Raaby, veio à altura:

Irei. Torstein

E olha que a jangada não era nenhum hotel cinco estrelas. O que sobrou dela foi restaurado e ainda hoje pode ser visto no Museu Kon-Tiki, em Oslo (Noruega).
National Association of Comic Art Educators: homepage que vale ouro para qualquer um interessado em dissecar esse negócio de quadrinhos, com direito a planos de estudo, exercícios para baixar em .pdf, indicações bibliográficas e um belo message board. Dica do PPP.

23.1.03

Eu ia elogiar o clipe de Three Little Birds que parece da equipe da Consequência (os mesmos que fizeram o vídeo-clipe do Frejat), porque a computação gráfica deixou a animação com cara de massinha, mas essa propaganda que a Faber Castell colocou no ar para aproveitar a volta às aulas me tirou do eixo. Dar terceira dimensão para os garranchos infantis de bonecos-palito foi fora de série.
Kung Fu Lounge: de Bill Gaines a Lichtenstein, passando por Alejandro Jodorowsky e o arco-íris da gravidade de Thomas Pynchon
Paradoxo da informação
Hipótese 1: para ficar bem informado, alguém precisa ler pelo menos 2 jornais por dia, mais 2 revistas semanais. Para ficar por dentro.

Hipótese 2: é bastante fácil comprar ou fazer a assinatura das tais 2 revistas semanais ou 2 jornais diários, sobretudo desde que os departamentos de marketing das empresas de mídia inventaram essas promoções em que na compra de um DVD-enciclopédia-carro ganha uma assinatura anual grátis.

Conclusão: é fácil ficar bem informado.

Paradoxo: qualquer um sabe que ler essa montoeira semanal de páginas não garante que se vá ficar bem informado, isto é, saber o que acontece, saber o que importa; saber o que diz a voz das ruas. Portanto, as hipóteses estão erradas.

Corolário do paradoxo: não adianta nada ler 2 jornais mais 2 revistas para ficar bem informado. Nem ler mais jornais ou revistas no afã de ficar bem informado; se dois elementos quaisquer não adiantam, não são 10 que vão resolver. Indução matemática simples.

Então, como fazer para ficar bem informado, para saber das coisas?
Sabe o que é chegar no Rio no começo da década de 70 assim meio sem perspectivas e ter que revisar de madrugada artigos do Paulo Francis para sobreviver?
Bráulio Tavares: escritor de ficção científica, cordelista (é assim que se chama que escreve literatura de cordel?), crítico de cinema, roteirista de quadrinhos.

22.1.03

Bruno Garschagen entrevista Sérgio Augusto, a quem o governador Espiridião Amim promete processar.

Comentando:
Ninguém me perguntou nada, mas eu acho que o Sérgio Augusto deu uma escorregada feia nessa entrevista, e digo qual. Lá pelas tantas o Bruno comenta que é difícil encontrar "ensaios, crônicas ou reportagens" no jornalismo cultural prenhes do bom humor que permeava os textos de "Sérgio Porto, Millôr, Jaguar, Antônio Maria, Carlinhos Oliveira etc." e questiona porque não houve o continuísmo desta tradição.

Sérgio Augusto diz que não vê essa "ruptura de continuidade", citando Millôr e Jaguar como exemplos vivos, e mais Veríssimo, por ter elevado o patamar da crônica humorística, Tutty Vasquez ("sucedâneio razoável do Stanislaw Ponte Preta") e o "jeito muito engraçado de olhar as coisas" do Joaquim Ferreira dos Santos. Beleza, só que todos os citados têm mais de 40 anos, o que só sustenta a ponto questionado pelo Bruno, de que não há nas, novas gerações, quem dê seguimento à tradição do humor instruído e espontâneo no jornalismo. Continuísmo não é só as mesmas pessoas fazendo as mesmas coisas, são novas pessoas fazendo as mesmas coisas, adaptadas aos tempos de hoje. Estagnação não é a mesma coisa que tradição. Todos os exemplos citados pelo Sérgio ou leram ou mesmo colaboraram com o Pasquim, que por mais de uma década e meia ditou a forma e o conteúdo do jornalismo combativo no país, e ainda hoje têm influência pesada nos meios culturais, haja vista o espaço de que um Millôr dispõe no jornal de domingo, ou os convites que o Ziraldo recebe para ser jurado de concursos ou escrever apresentação para autores novos. Não é que "muito pouca gente, hoje, se interessa pelo que a turma do velho Pasquim faz e tem a dizer", como Sérgio afirma. A queixa de que não há espaço para ele ou Ruy Castro na imprensa atual não é dele nem de hoje, é a mesma queixa do Henfil quando estava começando, como conta a entrevista publicada no livro Diário de um Cucaracha. É que as redações, hoje, são controladas por uma máfia que está isolando tanto ele como Ruy Castro. Dessa vez, uma máfia diferente.
Alguém aí é fumante?
O barato deste texto é como fica claro que existe toda uma cultura relacionada ao fumar. Há alguns anos fiz uma colagem de escritos diversos sobre o cigarro, bastante apreciada por fumantes -- o que tomo por um agradável elogio. Inclusive porque eu não fumo.
Fazendo a ronda:
1) Alexandre Soares Silva deu-se ao trabalho de colecionar os elogios recebidos por causa de seus textos mais polêmicos. Leia, concorde, discorde e, eventualmente, xingue mais...

2) Chulé? Meia culpa
A continuar assim, o acaba entrando para a ABL.

3) Está rolando: blog coletivo da revista eletrônica Fraude.

4) O copyright nos EUA dura 70 anos, mas a Disney conseguiu prolongar os direitos do Mickey Mouse por mais tempo em tribunal. Nemo Nox encontra uma história em quadrinhos que traduz a resolução do ponto de vista criativo.

5) E o Cocadaboa voltou, repaginado, com novas seções, logotipo novo e um novo gerenciamento de conteúdo que aumenta sobremaneira os urls mas segundo Mr. Manson facilita a vida deles, liberando tempo para a nobre tarefa de inventar besteira. Amém.

21.1.03

Conheci Rubem Braga a vida inteira. Li Rubem Braga a vida inteira. Foi, sem dúvida, o ser humano que mais admirei a vida inteira.

Millôr Fernandes confessa e ensina a conhecer o velho Braga em 20 lições, entre elas:

1 - EXCEÇÃO
Há mulheres tão lindas e estranhas que só acontecem pela madrugada em um grande aeroporto internacional.
5 - ATRAÇÃO
Nunca precisei usar sistematicamente o bonde Praia Vermelha, mas sempre fui simpatizante.
11 - FÉ
Glória ao padeiro, que acredita no pão.
14 - OUTSIDERS
Eu e o Oceano Atlântico fazemos algum ruído e funcionamos fora dos horários civis.
18 - TENTAÇÃO
Nesta varanda alta, sobre os veículos e os transeuntes matinais, tenho a vontade insensata de fazer um discurso.
Domingo passado completaram-se 10 anos do falecimento de Rubem Braga, e segunda-feria, os 20 anos de Mané Garrincha.

"Se há um Deus que regula o futebol, esse Deus é sobretudo irônico e farsante, e Garrincha foi um de seus delegados incumbidos de zombar de tudo e de todos, nos estádios. Mas, como é também um deus cruel, tirou do estonteante Garrincha a faculdade de perceber sua condição de agente divino. Foi um pobre e pequeno mortal que ajudou um país inteiro a sublimar suas tristezas. O pior é que as tristezas voltam, e não há outro Garrincha disponível. Precisa-se de um novo, que nos alimente o sonho."
(Carlos Drummond de Andrade)

Ontem também será lembrado pela morte de Al Hirschfeld, provavelmente o maior cartunista do mundo, aos 99 anos de idade e ainda desenhando. Uma vela virtual para ele.
Coisas que eu ouço:
- Por increça que parível...
O importante é manter
A mente quieta
A espinha ereta
E o coração tranqüiiiiiiiilo...

20.1.03

Osama pela primeira vez

(Em vista do início cada vez mais próximo da declaração de guerra dos EUA contra o Iraque, vai a republicação desta memória distante.)

A primeira vez em que ouvi falar em Osama bin Laden não faz 2 anos. Fui num almoço na casa da mãe de um amigo meu, e lá pelas tantas, depois daquela conversa fiada digestiva, o padrasto dele, baiano, chama a gente para ver uma coisa que tinha feito no computador. Mostrou uma foto do Osama bem jovem, aquela cara de pancrácio, turbante e tal. "Com quem parece?" Sem dúvida, era os cornos cuspidos do Caetano Veloso. Deu para sacar o que vinha dali, uma vez que o cara odiava Caetano. Aí mostrou uma capinha de CD a que ele se dado o trabalho de fazer, a foto do Osama lá no meião, e por título: Taliban / Caetano Veloso. Impressionante como casava bem. Taliban, Itapuã, nome de coisa baiana. Experimentem dizer com sotaque baiano: Taliban. Lógico que a essa altura a turma já rolava de rir. Tinha mais: ele contou que estava pensando em escrever debaixo da foto: "gravado em Londres, 1969-1971" -- o período do exílio! Não deu para agüentar. Enfim, foi a primeira vez em que ouvi falar de Osama bin Laden. Cada um tem as lembranças que pode.

17.1.03

Artur Vecchi manda avisar que está rolando um concurso de contos, com direito a prêmio, sobre a aventura de Call of Cthulhu narrada aqui. Para quem não sabe, Call of Cthulhu, além de nome de um conto, é um RPG baseado no universo de H.P. Lovecraft, onde a tônica das aventuras é investigação, suspense e terror ambientados na década de 20, ou seja, o universo ficcional daquele escritor.
Napoleão Salvadorenho
El Salvador McNamarra qualifica como "divertido caminhão de bobagens e absurdos" meus argumentos em defesa da nobre nação belga, sem ao menos se dar o trabalho de contestá-los. Não poderia se esperar muito de quem classifica como país o Piauí e Aracaju. Depois dessa inequívoca demonstração de ignorância geográfica, creio não ser mais necessário estender a discussão. E depois eu é que tenho insanidade mental!
Quer saber o patrimônio daquele deputado safado? Quer ver a declaração de bens daquele senador pilantra? Faça você mesmo o Controle Público.
A Short History of America: Robert Crumb conta apenas com imagens o que se passou em 5 séculos. Coloridos os quadros e justapostos em sequência, dão um belo pôster. Ao menos dá para ver como fica animado.
O documentário Crumb começa com o próprio projetando slides em uma palestra, na qual cita alguns famosos desenhos que nem todo mundo sabe que são dele. Nesse sentido, Crumb é uma espécie de Ziraldo norte-americano, seus desenhos se tornaram parte do universo visual coletivo. Imagens como Keep on Trucking, pirateada como adesivo e placa de carro; Stoned Again, estampada em camisetas; Devil Girl (acho que era uma marca de chocolate); a capa de Cheap Thrills, disco de Janis Joplin, ou do número 1 da Zap Comix. Na década de 90, já respeitado, fez para a New Yorker uma capa parodiando a versão original de James Thurber.
Entre as inúmeras capas de disco e de revistas, álbuns, trading cards e logotipos que desenhou, meu predileto é o do disco Harmonica Blues.

16.1.03

[Timothy] Leary once told me that he thought that the best single piece of advice he could give to a writer was to either write stoned and edit sober, or vice versa.

Aprendendo a escrever? Desbloquear a criatividade? William Gibson dá as dicas:

And then there is the matter of “state-specific learning”, wherein skills acquired in an altered state prove difficult, even impossible, to import to an unaltered state. This can be a problem, should one find oneself for some reason unable (or perhaps, eventually, unwilling) to alter state. I suspect that this, more than anything else, accounts for much of the (Western) mythology of drugs and creativity. If you learn to write on drugs, you might find that you feel you need drugs in order to write.
Rébus, o passatempo predileto da Recreativa, uma dica do Foresti. Tem mais aqui.
Falando nisso, a solução desse é: pata ma rins u pêra vel = patamar insuperável.
Cris Dias está voltando! E isso não seria menos notório, por ele ser o criador do Toplinks e do Idearo, se não fosse a sincronicidade com outros bloguistas expatriados que decidiram por fim aos seus exílios por agora -- Marcelo Träsel (do Martelada) voltou de uma viagem de não sei quantos meses na Europa depois da eleição do Lula, e Danilo Amaral, apesar de ainda escrever de NY, sentiu o mesmo banzo durante suas férias.
Serão os ventos dos novos tempos?

15.1.03

De onde menos se espera
"Foi Paul Auster quem me disse - há anos - que Bye bye Brasil foi um filme de fortíssima inspiração e 'libertação' para a sua literatura e que ele jamais teria escrito New York trilogy se não tivesse visto o filme inúmeras vezes." (Gerald Thomas, em sua coluna dessa semana no Jotabê).
Calça da Gang
Toda mulher quer
Noventa reais

Para dar problema de coluna!
Fazendo a ronda
1) Catarro Verde comemora dois anos com soneto do Glauco Mattoso.

2) Bruno Garschagen anuncia a morte de Vertigem para o fim do mês. Ainda dá tempo de ler os textos sobre Nelson Rodrigues, Thomas Hardy e John Fante -- e protestar!

3) Luiz N divaga sobre a qualidade onomatopaica do blog no inacreditável 1001 Pequenas Histórias, mais uma alternativa a que o formato diário se presta.

4) Mas mesmo assim milhares de paulistas invadem suas praias no verão. Paulistas são como seus ancestrais bandeirantes, vão tomando tudo o que vem pela frente. Trazem modernização e instauram ocupação produtiva. No meio do caminho, claro, vão destruindo tudo o que já estava por lá, em perfeita harmonia estática. Mas acho que sei porque gostam tanto da capital catarinense: não se vai a uma praia sequer em Floripa sem um motor traseiro sobre quatro rodas. Um prato cheio pra paulistano.

Danilo Amaral fecha a tampa das suas férias e observa o sentimento geral da nação:

Acho que a questão é outra. O medo agora é que está menos assustador. Continua aparecendo no escuro, é verdade, mas pelo menos não chega de surpresa e vai logo avisando o que vai fazer. Causa menos terror.

5) Mais um soneto, o que Alexandre Soares Silva mandou hoje, dei-me ao trabalho de conferir: com métrica e rima! Em decassílabos!

6) Mario AV ainda ocupado com a "faxina na casa e nos bits", fala sobre as limitações do meio:
Escrevo cada vez menos nos blogs porque restam poucas coisas que julgo importantes o bastante para advogar ou combater. Sobre a personalidade do autor, é muito difícil deduzi-la do blog. Na minha experiência pessoal, as pessoas são mais interessantes, amáveis e divertidas do que aquilo que escrevem.
Por isso é até prudente dar um desconto e não se aborrecer com a primeira coisa que vê.

14.1.03

Agora ninguém pode reclamar que não entendeu: animação em java demonstrando o teorema de Pitágoras.
Aspas para Claudio Julio Tognolli:
"A grande perversão da tecnologia é que as pessoas não têm mais tempo para realizar o que estão fazendo. Os piores agentes disso são os jornalistas que, às vezes até
inconscientemente, estão ajudando a construir um fantasma ou satanizar uma categoria, cuja satanização o jornalista não tem idéia a que serve. O importante é que ele foi dormir e fechou tudo."

"Com uma linguagem reduzida e com conceitos rígidos, você programa as pessoas pela linguagem, pela repetição. Diminuir o universo simbólico das pessoas, isto é, a linguagem, significa encolher a capacidade de elas verem os conceitos entre aspas. Daí é que vem a intolerância."

"Liberdade de imprensa é liberdade de empresa."
Ghost World, o quadrinho, é sobre a degeneração da amizade entre duas garotas na transição para a idade adulta, é a procura de referências sólidas às quais se pode apegar para amadurecer num lugar cada vez mais anódino, insípido, inócuo -- um mundo fantasma. À medida em que vêem a infância ser dragada cada vez para mais longe, Enid e Rebecca tem que encarar novos problemas, a separação que uma faculdade causaria e a pressão dos exames para ingressar lá, uma atitude mais responsável em relação aos próprios sentimentos, e finalmente, uma reformulação no modo como vêem esse novo mundo, sob pena de não encontrarem lugar para si nele. É Daniel Clowes em plena forma narrativa, irretocável em diálogos, elipses e hachuras, até mais do que na obra-prima Like a Velvet Glove Cast in Iron.

Ghost World, o filme, é a completa revisão da Hq para um roteiro onde se introduz um personagem masculino preponderante na trama (Steve Buscemi, escolha default), diminuindo-se sensivelmente a participação de Rebecca e movendo-se o foco de sua relação com Enid para a de Enid com Seymoure, o personagem de Buscemi. Que, aliás, não deixa de ser um acerto de contas dramatúrgico, já que ele é uma mistura das figuras reais de Terry Zwigoff, do próprio Daniel Clowes e de Robert Crumb (o último, sujeito de desconcertante documentário dirigido por Zwigoff): misantropos, anacrônicos, cada vez mais perdidos na falta de cara da America corporativa. É como se eles quisessem mostrar o outro lado de um conhecido arquétipo do cinema hollywodiano, o loser. É sobre desilusão, sobre a falta de referenciais sólidos num mundo de redes de café, lanchonetes e cinemas multiplex, onde a sensibilidade pessoal tem que abrir espaço à foice para se expressar -- mesmo num curso de arte. É sobre a dificuldade de encontrar lugar para si num novo mundo, sob pena de se tornarem invisíveis, fantasmas. É a ótima interpretação de Thora Birch e Steve Buscemi, os diálogos de Clowes (melhores do os de qualquer película da mesma época), a cenografia e os figurinos que não deixam a sensação de tédio ser amenizada pelo colorido. Expressa o mesmo zeitgeist depressivo, por exemplo, de uma música do Nirvana.

Algumas curiosidades sobre o filme:
- o roteiro adaptado concorreu ao Oscar (e perdeu);
- o restaurante Coon Chiken Inn, cujo cartaz Enid leva para a exposição, realmente existiu nos E.U.A., mas nunca mudou de nome, tendo fechado em 1959.
- Os retratos à mão livre que Enid desenha foram feitos por Sophia Crumb, filha de Robert.
- o disco que Seymoure desaconselha Enid a comprar é do Cheap Suit Serenaders, conjunto de blues e folk no qual R. Crumb e T. Zwigoff tocam nas horas vagas. Se não fossem eles dois quem são, seria o caso de usar o clichê "projeto paralelo"...

13.1.03

Estooooooopa!
Lembro de uma época, não faz muito, uns 2 anos atrás, em que o ânimo nacional andava em baixa. Estagnação econômica, a seleção perdendo para Honduras, tava difícil melhorar o humor. Nessa época o Guga voltou a ganhar, ganhou uns 3 torneios e no final do ano ainda levou a "copa do mundo" de tênis. Um comentário inesquecível foi feito pela Mariana Newlands: agora o Guga é o meu time, só torço por ele. Lembro disso sempre que o vejo ganhando um torneio, ainda mais logo no começo do ano.
Caiu a obrigatoriedade do diploma para tirar registro profissional em jornalismo. Claudio Tognolli, com mestrado e doutorado na USP, declarou em entrevistas ser contra essa obrigatoriedade, onde dizia que a parte técnica da profissão se aprende em 6 meses. Não vai ser isso a resolver o problema da má formação jornalística na imprensa, mas ao menos acaba-se com a chance de se formar mais um curral.
E ainda bem que eu não fiz faculdade de jornalismo, hehehe...

12.1.03

- Cala a boca, blogueiro!
A primeira vez que se ouve isso numa discussão a gente nunca esquece...

10.1.03

"Automation can achieve so much in so many areas of work that managers are tempted to think they can automate everything. But the most important aspects of work are the hardest to automate."
...
"Computers are fine, in their place; but their proper place is at the edge of a healthy distribution of clutter."

Na próxima vez que alguém vier reclamar da pilha de papéis na sua mesa, indique este texto (dica do Cris Dias).
Outra coisa que eu soube só lá pelos 45 do segundo tempo é que estou a apenas 2 graus de separação do Dalai Lama.
O que significa, por corolário, que todo mundo que me conhece está automaticamente a (pelo menos) 3 graus :)
O bilhete para a estagiária seria quase um hai kai, não fosse a quarta linha a quebrar o pé do verso:

Não tive saco.
Meu micro deu pau.
Não tenho tempo.
Já sabe para quem sobra.

Fazendo a ronda (atrasado):
1) Ricky Goodwin publica o seguinte desmentido acerca da governadora eleita:
A Governadora do Rio de Janeiro, Rosangela Matheus, desmentiu junto a este blog0news que tenha recomendado a todas as repartições públicas que adotassem como calendário oficial a edição do Corpo de Bombeiros, Heróis do Rio, com fotografias de 12 bombeiros bombados.
Dona Rosângela acrescentou estar ciente de que não se deve confundir preferências pessoais com a ordem pública.


2) Tiago Teixeira lista os melhores filmes de 2002. da seleção dele, eu só trocaria Ocean's Eleven (que não vi) por Cidade de Deus.

3) Eu achava que a melhor do John Lennon era aquela carta que ele mandou com o abecedário no verso em resposta a um leitor que escreveu-lhe pedindo que ele lhe respondesse dizendo alguma coisa, até ler esse trecho de entrevista que o Freddy publicou.

4) Julio Lemos comenta o que conservam os conservadores e porque não se deve ceder ao Zeitgeist.

5) PC Barreto critica, faixa a faixa, o CD Tudo a Ver, com trilhas sonoras de aberturas de programas da Tv Globo.

6) Alex Maron dá a dica de um quadrinho do qual já me falaram muito bem, e que ainda não li: 100 Balas.

9.1.03

Mundo Fantasma
Ler uma história de [Daniel] Clowes é como tomar uma aula de pessimismo. Às vezes eu fico com a impressão de que ele é uma pessoa do tipo que renomeia os arquivos que vai apagar com o nome de seus inimigos só para poder ter a satisfação de clicar no botão do “sim” quando o computador perguntar “tem certeza que quer mandar Fulano de Tal para a lixeira?”. Num dos primeiros números da Eightball, Clowes fez uma história chamada “I hate you deeply”, em que se resume a listar todos os tipos que fazem sua taxa de lítio baixar. Depois, numa tentativa de se redimir, tentou “I love you tenderly”. Conseguiu achar assunto para falar bem por uma página e meia, depois pediu licença, disse que tinha esquecido alguma coisa na história anterior - e soltou mais veneno.

Daniel Clowes é o cara. Enfim vi Ghost World. Já conhecia o quadrinho, tanto quanto Like a Velvet Glove Cast in Iron. Merece um texto maior, mais aprofundado; por enquanto, vão os links.
Mas o que eu queria mesmo é ter -- somente uma parcela seria suficiente -- a verve e o senso de típico do Tom Wolfe para poder escrever um artigo brilhante sobre a primeira noite do Humaitá Pra Peixe, para caracterizar definitivamente o público e os artistas que vão nesses lugares, onde seria preciso pouco talento além do necessário para descrever, nos mínimos detalhes, exatamente o que se vê ao redor. Por enquanto, tenho que me contentar com parágrafos envelhecidos assim:

...tanto o CEP 20000 (e seu filhotinho ainda mais infame, CEP 20mílsica) quanto o Humaitá Pra Peixe conseguiram, ao longo dos anos, além da sobrevivência, notoriedade suficiente para amealhar colunas em jornais de grande circulação & outros indicadores de confiabilidade e respeitabilidade. Se a causa disso foi a qualidade dos experimentos conduzidos no laboratório ou o imenso hype explorado em cima do déficit cultural da classe média e da fome da indústria do entretenimento por novidades, feito por gente que entendeu timtim por timtim as teorias de Antonio Gramsci, aí já fica mais difícil afirmar.

8.1.03

Mariana Newlands
A primeira vez que eu ouvi falar nela foi no blog Cortina. Fiquei um pouco chateado, porque era bom e tinha acabado de acabar. De vez em quando pintava alguma coisa nova na Clarabóia, mas rareava. Era começo de ano e ela dizia partir para novos projetos. Mais ou menos nessa época acho que também a vi tomando um chopp no Dia Internacional do Bracarense. Depois, sumiu até o fim do ano passado, quando seu nome apareceu de novo associado ao Multi-uso, um daqueles blogs em que os leitores é que escrevem. Hoje, enfim, descobri o que ela tinha feito neste meio tempo: o photolog Photo du jour, um diário visual rodado principalmente no Rio de Janeiro, com incursões ao interior e à Bolonha. Formidável, uma beleza seu olhar para detalhes. Ao que parece, ela anda gostando tanto da encarnação fotógrafa/ilustradora, a ponto de invadir a sala da casa, ou no caso, seu domínio principal: Interlúdio.

7.1.03

Caro Rafael
Vc se esquece de citar o meu finado orientador de mestrado, Timothy Leary, o pai da memética, muito mais que o Dawkins
, foi o comentário do Claudio Tognolli naquele artigo sobre neurociência.

Sai dessa agora, malandro. Quem manda ficar se metendo a escrever difícil sem ter lido o que devia. Tremenda saia justa: eu não tinha a mínima idéia da importância do Leary, até então pouco mais do que "o guru do LSD", para esse campo do conhecimento. O único jeito era abrir o jogo:

Caro Claudio,
O problema é que, certamente por ter cunhado o termo meme, a maioria das referências acaba sempre apontando para Dawkins, mais do que qualquer outro. Não li o livro que você escreveu e conheço poucos trabalhos do Leary nessa área, mas topo escrever uma coluna restaurando a relevância do Timothy se você me der o toque do caminho das pedras.


Íncrivel o que se consegue quando se é franco e honesto. Claudio Julio Tognolli não só mostrou o caminho como ainda levantou algumas pedras para que eu pudesse ver o que tinha embaixo. Seguiu-se uma rica troca de mensagens, a biografia do Timothy Leary, a difícil leitura de Sociedade dos Chavões (por causa do meu parco conhecimento de psicologia e psicanálise, que tornou alguns capítulos indecifráveis), além de uma excursão atrás do elo perdido da memética. Nesse meio tempo a página do Tognolli foi ao ar -- e necas deu escrever o tal texto me retratando. Essa notinha também é uma mea culpa, se não me eximindo da tarefa, ao menos reconhecendo publicamente uma dívida. Começo de ano em geral é época de resoluções, mesmo as que nascem para amarelar na parede, então vamos ver se nesse ano consigo juntar as idéias. Nem que tenha que fazer uma tese de mestrado para isso...
Krazy Kat, raridades: 1, 2, 3 e 4. Tem também a página oficial.
Porque esse negócio de tradição oral sempre me pareceu coisa de atriz de filme pornô...
Tudo se resume a troca de informação?
É só impressão minha ou a biologia anda fornecendo todas as, senão melhores, mais frequentes analogias para a disseminação dos meios de comunicação de massa, especialmente a internet? Volta e meia me deparo com algum texto em que o comportamento humano provocado por novas tecnologias, ou a dinâmica das informações, ou ainda sua combinação -- as alterações que computadores, PDAs, telefones celulares, etc. causam na maneira como processamos informações -- sempre parecem ter par em algum processo biológico. Ora é o barateamento das mensagens digitadas sobre mensagens de voz em telefones celulares que criou as chamadas "smart mobs", ou seja, grupos de pessoas sem uma chefia definida que se comportam como um bando; ora são os memes, comparados a vírus; ora o próprio Google é visto como o meio ambiente, enquanto o uso de grupos de discussão, fóruns e weblogs comunitários é entendido como estigmergia... Afinal, seriam essas as alterações neurais previstas por Marshall McLuhan com o surgimento da aldeia global: passarmos a nos comportar como formigas? Ou trata-se simplesmente de uma mudança de conceito, como Kevin Kelly colocou em seu artigo para a Wired: "Biology, that pulsating mass of plant and animal flesh, is conceived by science today as an information process", (grifo meu)?

6.1.03

Brindemos: hoje é aniversário do Bar Luís. Cento e quantos anos?

3.1.03

Em 1995, certamente comemorando os 100 anos do Yellow Kid, data tida como a inaugural do que se entende hoje por histórias em quadrinhos, foi lançada uma exemplar coleção de selos de personagens clássicos pelo U.S. Mail. Item de colecionador.
Flechada
Quando descobri pelo mapa que o Código de Hamurabi encontrava-se naquele museu, não perdi mais tempo. Já tinha visitado todas as alas, já tinha visto todos os quadros e esculturas que haviam sido me recomendados como imperdíveis, agora era a hora de ajustar as contas com a curiosidade. Localizei a foto no mapa, tracei um caminho mental e rumei decidido. É claro que não pude chegar de primeira, pois várias salas por onde deveria passar estavam fechadas, então tive que retraçar o trajeto por meio de atalhos, que invariavelmente compunham-se de relíquias contemporâneas ou conterrâneas do Código de Hamurabi. E enquanto ia me esquivando de qualquer coisa que pudesse desviar minha atenção, quase sem querer, eu vi. Pequena, agora penso como poderia ter passado desapercebida... A mesma escultura do escriba, assíria? Babilônica?, cuja foto eu vira incontáveis vezes em livros de História primitiva. Um escriba sentado, com as mãos entrelaçadas, barrete na cabeça, meio sorriso no rosto e olhar enigmático. Eu o conhecia como um amigo de infância -- sem nunca tê-lo visto de perto. Toda uma vida imaginando seu tamanho verdadeiro, proporção, a textura da pedra negra onde fora esculpido, as rachaduras trazidas pelo tempo, sua cor. Uma quantidade imensa de neurônios empregada na terrível tarefa de concebê-lo mentalmente, de formar um modelo mental que traduzisse fidedignamente aquela escultura, tudo indo por água abaixo na distração de um olhar. Foi como se um pequeno vácuo tivesse se formado em algum lugar da minha cabeça. Todo aquele esforço mental subitamente sendo trocado por uma mera imagem, no entanto mais real e verdadeira do que qualquer fotografia colorida impressa pudesse transmitir. Uma quantidade enorme de informações prontamente zipada, liberando de volta os neurônios para novas funções, já que eu não precisava mais imaginar, conceber, criar modelos mentais -- eu tinha visto e sabia como era.
Pois é, quando te conheci foi uma sensação parecida. Só que em relação a algo muito maior -- a gente. A tudo.

Foi como tomar uma flechada no meu inconsciente.
É duro ser estátua
Depois da estátua do Drummond, mais um mineiro, Otto Lara Resende, a quem Nelson Rodrigues dizia que deveriam colocar um taquígrafo permanentemente em seu encalço para anotar suas tiradas, ganha estátua. Vem se juntar ao Noel Rosa (em Vila Isabel), ao Zózimo (no final do Leblon) e ao Pixinguinha, no centro.

2.1.03

Em determinada quinta-feira de dezembro de 2002, Caio Mourão saiu de seu refúgio em Iguaba Grande para lançar um livro -- Prata da Casa -- com as crônicas e memórias que andava escrevendo para um jornal da região dos lagos fluminense. Caio é um dos, com o perdão da palavra, sobreviventes da Ipanema clássica de Ela é Carioca em mitológicas histórias. Na mesma noite, a várias quadras dali, Wagner Carelli e Sônia Nolasco lançavam os primeiros volumes de uma nova editora, entre os quais a reedição de dois romances de Paulo Francis, outro personagem daquela Ipanema, que não sobreviveu. E no bairro vizinho, discretamente, era lançado O Futuro da Psicanálise, coletânea de artigos com participação do várias vezes citado aqui Luiz Sérgio Coelho de Sampaio.
"Mas que é estranho ver o Gilberto Gil de paletó e gravata, é."
Franklin Martins, comentando a posse. Grande parte do possível sucesso de Gil em seu mandato consistirá em saber interpretar corretamente a seguinte máxima de Tia Zulmira, a sábia macróbia: "Nem todo crioulo dançando é folclore."
Cheio de gás na primeira ronda do ano:
1) Andei atrás de soluções para o entupimento que esse quase diário passou recentemente, que se resolveu antes de qualquer solução se avizinhar. Assim mesmo eu havia recebido uma dica tiro-e-queda à qual o Cris Dias também chegou, por vias outras. Fica aí para quem tiver o mesmo problema:

De vez em quando meu "Ver Código Fonte" no Internet Explorer resolve parar de funcionar. (...) Basta limpar os arquivos temporários (cache) do Internet Explorer. (Tools -> Internet Options -> Delete Files, na versão em inglês). ... acho que o sentido é algum site pentelho que desliga a opção de ver o código fonte e o IE acaba se enrolando na volta.

2) "Quem vive de aspirações é camareira de hotel", mais uma pérola do abecedário Haroldinho, listando resoluções pessoais e profissionais de ano novo.

3) Conservador, sim, mas não míope. Pelo menos não tão míope como várias vozes que se expõe, sobretudo na internet, como detentores da Verdade, como defensores da Nova Velha Ordem e que, entre outras coisas, pregam a “tradicional exclusão social”. De modo algum presunçoso, capaz de reduzir uma obra como a do intelectual Isaiah Berlin a uma “tragédia que só deu frutos nesta árvore podre chamada Brasil.”. Não, eu não faço parte desta corja.

Paulo Polzonoff dá nome aos bois ao abrir fogo contra a "direita festiva". Taí, essa eu quero ver. Espero que Martim Vasquez ou algum dos demais citados responda.

4) Let's vamos listar sites com fontes, para os tipófilos de plantão.