28.2.03

Pergunta: O que têm em comum os livros A Sangue Frio, de Truman Capote; Décadas Púrpuras e Ficar ou Não Ficar, de Tom Wolfe; Os Degraus do Pentágono e A Luta, de Norman Mailer, Fear and Loathing in Las Vegas, de Hunter S. Thompson e A Mulher do Próximo, de Gay Talese?

Resposta: Nenhum deles pode ser considerado Literatura. Todos eles foram livros escritos com base em pesquisas realizadas por cada dos escritores acima e são relatos, em maior ou em menor grau, factuais do que foi visto ou ouvido. Numa biblioteca, têm que ser colocados numa estante à parte, na seção de para-literatura ou meta-literatura, mais próximos das coletâneas de jornalismo do que da ficção, que é onde fica a Literatura. Ainda que façam uso de recursos ou da técnica literária, não se pode classificá-los como Literatura, assim mesmo com L maiúsculo. Se fosse assim, histórias em quadrinhos também deveriam ser classificadas como literatura, afinal, também podem se valer de recursos & técnica literária.

Pergunta: E qual é a diferença?

Resposta: A Literatura, que surgiu com a poesia lírica, adota por tema "as sutilezas da alma de cada um", ao contrário do que acontecia nos épicos, onde o tema era externo a qualquer um e a diferença se dava apenas pelo modo de narrar. Thompson, Mailer, Wolfe, todos eles relataram fatos que qualquer um repórter poderia igualmente ter feito, não obstante as superiores capacidades narrativas deles.

Pergunta: E isso faz dos livros citados acima piores?

Resposta: Não. Mas também não faz deles Literatura.

27.2.03

O urubu tá com raiva do boi
Mas eu sei que ele tá com a razão
O urubu tá com fome quer comer
Mas o boi não quer morrer
Não dá alimentação...
Ter ou não ter comentários?
Neo ataca de frente:
Alguns posts escritos aqui estimulam um comentário de quem lê, é fato. Mas isso não é motivo suficiente para que esses comentários sejam publicados.
(...)
Os comentários são uma espécie de lista de discussão minimalista (...), e isso é um meio de comunicação significativo na medida em que soluciona uma vontade (do leitor) de se expressar ao mesmo tempo em que alimenta o desejo (de quem escreveu primeiro) de repercurtir o troço. Isso se chama diálogo. Mas aqui não é uma ágora.
O resto está aqui.
Ontem vi o trailer do aguardado filme do Hulk. Aguardado por mim, no caso, e há muito tempo -- quem lia os quadrinhos nos tempos remotos da infância e lembra a precariedade tanto da impressão das revistas quanto dos efeitos especiais no cinema sabe o quanto sonhou com o dia em que as tecnologias visuais teriam evoluído o suficiente para levar à tela o gigante esmeralda. Claro que os fãs mais nerds -- os mesmos que não pararam de ler super-heróis mensalmente depois de adultos -- vão reclamar que os movimentos estão robóticos, que as expressões faciais estão congeladas, que aqueles músculos não existem ao invés de aproveitarem o que está rolando na tela. Uma das cenas clássicas, que era clichê em quadrinhos e tiveram o cuidado de transpôr para a tela, é a do Hulk girando um tanque pelo canhão e atirando-o longe. Espanta fazer as contas e concluir que foi preciso menos do que um par de décadas para dar movimento ao Homem-Aranha, X-Men, o Hulk.

Falando assim, parece até que o trailer foi melhor do que o filme principal. Não foi. É Spielberg fazendo o que faz melhor: brincando de ser Spielberg. Ao invés de amadurecer, ser grave, circunspecto e difícil.

Nada como reestabelecer o mundo como ele era na infância.

25.2.03

Sentindo-se solitário? Vai uma gota de sangue gasta em cada post bem escrito, e ninguém no ciberespaço se dá ao trabalho de comentá-lo? Esses brutos não têm sensibilidade para o verdadeiro talento? Seus problemas acabaram: contrate os serviços profissionais Samara Comenta, comentadora de blogs profissional. Mais um oferecimento da mente insana do Lisandro.
Até o fim dos dias
Foi a Patricia quem propôs uma vez, como projeto para o resto da vida, tirar fotos das ruas que ela mais gosta e repetir esse ato a cada 10 anos. De cara, me lembrei do Conto de Natal de Auggie Wren, onde o dono da charutaria mostra ao escritor Paul Benjamin sua coleção de fotos de uma esquina particular no Brooklin, uma tirada por dia. Outra coisa que me veio à cabeça é uma frase que o Gabeira usa de epígrafe em um de seus livros, "ninguém conheceu um determinado lugar a não ser numa determinada época; não é possível viver uma determinada época a não ser um determinado lugar".

Acabei divergindo para transitoriedade e efemérides quando o assunto em questão era projetos de vida. Toda vez que eu passo por uma experiência festiva de grandes dimensões (como o foi o desfile do Monobloco), volta-me a ocasião da leitura de um certo artigo em uma revista estrangeira, não lembro qual, listando as 20 maiores festas do mundo. Fui conferir e para meu espanto, descobri que já tinha estado em duas delas!

Nunca encontrei o tal artigo na internet, mas em compensação, achei uma listinha tipo top ten e descobri os completíssimos WhatsOnWhen, 2 Camels, StreetParties, Festivals.com e o World-party.com, que mantinha em votação contínua as 40 melhores festas do mundo. Valia tudo, de evento (Fête de la Musique, Dia de los Muertos) a Carnaval (Mardi Gras), a parada (Love Parade, Queda da Bastilha),a festival (de música de Glastonbury, de artes de Edimburgo), a bebedeira (Oktoberfest) até aquele tipo de coisa que desafia definições rápidas (Burning Man).

Então que não seria um mau projeto de vida visitar as 30 maiores festas do mundo. Descobri até que, em menor escala, um gringo já está fazendo isso, na taxa de uma festa por continente. A propósito, a minha contagem atual não está mais em duas, já são três.
Beckett, Ionesco e Jarry
"Que o Judiciário passe a (...) agir dentro da lei antes que seja tarde. Se as leis foram feitas para serem cumpridas, por que este abuso?"

Quem foi o autor da frase acima?
(a) Rosinha Matheus Garotinho
(b) Arnaldo Jabor, no Jornal Nacional
(c) Cesar Maia, prefeito do RJ
(d) um articulista de fundo do Jotabê
(e) um deputado estadual do PT

A resposta está aqui.
Ah, como é bom morar em Medellín! Jogar avião em arranha-céu daqui terrorista não joga, mas com trinta e um veículos queimados e depredados, coquetel molotov arremessado num ônibus em Botafogo, cabine da PM metralhada, comércio fechado à força em não sei quantos bairros -- tudo isso pela segunda vez em menos de seis meses! -- eu pergunto se a gente precisa...

E a governadora Rosinha Matheus disse que já sabia da disposição do tráfico -- desde a meia-noite de domingo.

24.2.03

Ontem foi dia de Monobloco. Não sei o que me espanta mais no desfile: a prova viva de que o carnaval de rua ainda sobrevive, mesmo que com roupagem muderna; as impressionantes aglomerações (confiram nas capas do Jotabê e do Globo de hoje); a Zélia Duncan tocando tambor na ala dos batuqueiros, a quantidade de patricinhas de maquiagem e celular no meio do samba; a variedade rítmica das músicas ou o espetáculo que é o bloco conseguir atravessar seu trajeto de 3km (como a cada ano muda o trajeto, menciono apenas a extensão) sem executar nenhuma, ah!, nenhuma axé music. Melhor do que o Monobloco, só mesmo o bloco do Derrida ou Desce.
Monobloco: reportagens no JB e no Globo.

21.2.03

Um pouco de arte feita a partir do Mathematica, exemplificando o poder do software.
Aviso à comunidade
Como o Paulo Polzonoff Jr. ficou meio preocupado com as más interpretações que isso pode desencadear, sugiro que os rotuladores de plantão leiam mais sobre o assunto e conheçam a História antes de ficarem por aí salivando com suas maquininhas remarcadoras...
Autômatos Celulares
Foi através do Hiro que eu ouvi falar pela primeira vez de Stephen Wolfram. Já conhecia de nome o Mathematica, programinha de cálculo que o mini-gênio desenvolveu para resolver os próprios problemas (prático, não? Ao invés de utilizar um existente, foi lá e escreveu o seu software), mas o termo cellular automata, autômato celular, não pertencia ao meu vocabulário até aqueles artigos. Como se criar um programa e ficar milionário da venda dos direitos fosse pouco, Wolfram decidira passar os últimos 10 anos (ou coisa assim) trabalhando num livro, A New Kind of Science, onde ele elaborarava um novo tipo de ciência com que iria explicar todo o comportamento do universo. As reportagens noticiavam o recente lançamento do livro.

Um dos pulos-de-gato na pesquisa de Wolfram é exatamente o conceito de autômato celular, que seria o menor elemento de um sistema (célula) capaz de alternar naturalmente entre um número finito de estados a intervalos de tempo iguais (autômato), segundo uma regra definida. Um exemplo banal do que seria um autômato celular é o jogo-passatempo Life, ao fim e ao cabo, uma simulação do desenvolvimento de populações. Cada quadrinho cheio, representando uma população (ou um indivíduo) permanece "vivo" na rodada se o número de vizinhos adjacentes é propício a tal, nem excessivo, nem pouco, e a cada rodada nova tem-se uma configuração diferente. O objetivo do jogo é escolher uma configuração inicial de tal sorte que ela permaneça estável. Exemplos do jogo Life mostram como diversas combinações espaciais podem propiciar populações estáveis.

Nas teses de Wolfram para explicar o universo, autômatos celulares teriam um papel fundamental na explicação do desenvolvimento de estruturas complexas, que teriam sua origem em recombinações lineares de sistemas mais simples. A melhor analogia que encontrei de como isso se daria supõe o seguinte: você tem que ladrilhar o gramado do Maracanã, incluindo o espaço fora das 4 linhas. Do lado de cada gol tem uma pilha enorme de caixas com ladrilhos padrão, pretos e brancos. Como simplesmente ir colocando um ladrilho do lado do outro iria te matar de tédio, você começa a bolar pequenas leis, simples padrões a seguir que norteiem a montagem: dois ladrilhos pretos só podem se tocar na diagonal, ladrilhos brancos podem formar Ts mas não Us, e assim sucessivamente. De posse de umas 10 regrinhas, você recomeça o trabalho e vai, mês após mês, desempilhando e cobrindo o campo. Depois de alguns anos, a última caixa esvaziando, finalmente o último ladrilho é colocado. Hora de limpar o suor e ir embora. Antes, porém, você decide dar uma olhada no resultado: sobre a rampa, entra na arquibancada, degrau a degrau acima, de costas para o gramado completamente coberto, até a cabine de imprensa, imaginando que ao chegar lá em cima você verá algum padrão como mármore ou areia. Então você vira, olha e vê uma flor -- perfeita, com textura, forma, vida.

Stephen Wolfram deve ter experimentado uma sensação assim quando, após meses trancado em seu laboratório imprimindo gráficos gerados por autômatos celulares matemáticos, deparou-se com um padrão visual conhecido, uma imagem existente e recorrente na natureza. Se aqueles autômatos, através de operações elementares, eram capazes de criar aquilo, então talvez eles fossem o elemento que faltava ao entendimento da natureza através de padrões. Dado que a matemática é a linguagem da natureza, e que desde os gregos se conhece a razão dourada, razão constante que se manifesta em várias proporções do ser humano, e que quando aparece no rosto humanos tendemos a interpretar aquilo como beleza; dado que Fídias, o arquiteto e escultor grego, utilizava amplamente essa razão tanto nas esculturas quanto nas estruturas que projetava, e hoje a letra grega que designa a razão dourada é o Fi em sua homenagem; dado que a constante Pi, não por acaso outra letra grega irracional cuja aleatoriedade na parte fracionária faz dela um número irracional tão intrigante que até um filme já foi feito a seu respeito, então talvez os autômatos celulares, na sua capacidade de simularem (ou seria copiarem?) a realidade, mais do que fornecerem vários elementos para o estudo da vida artificial, fossem o caminho para o entendimento da vida no universo.

Pensamentos assim voltaram-me à mente quando soube que o Ram tinha lido o livro do Wolfram e redigido suas ruminações a respeito. Quando do lançamento, a maior parte da reportagens era de espanto e ceticismo; com o tempo, apareceram as primeiras críticas fundamentadas e questionamentos teóricos. É um dos assuntos mais intrigantes com que me deparei.

20.2.03

Salinger Checklist
J.D. Salinger é daqueles escritores que trocou a prolificidade pela qualidade e escreveu tão pouco que torna possível, quando não fácil, fazer uma lista dessas, conquanto ela o tenha de retenção anal. A originalidade dos títulos dos contos contrasta com o franciscanismo dos títulos dos livros que os colecionam; observar também a coerência com que evolui e cresce o universo ficcional da família Glass. É vexatório saber que revistas como a Cosmopolitan e Esquire um dia publicaram contos assim e se transformaram no que são. Algumas anotações breves seguem ao fim, a título de curiosidade.

1940 - The Young Folks (conto na revista "Story")
1941 - The Hang of It (conto na revista "Collier's") e The Heart of a Broken Story (conto na revista "Esquire")
1942 - Personal Notes of an Infantryman (conto na revista "Collier's") e The Long Debut of Lois Tagget (conto na revista "Esquire"), e ainda Paula (conto inédito comprado pela revista "Stag")
1943 - The Variono Brothers (conto no "Saturday Evening Post")
1944 - Both Parties Concerned, Soft-Boiled Sergeant e Last Day of the Last Furlough (contos no "Saturday Evening Post") e Once a Week Won't Kill You (conto na revista "Story")
1945 - A Boy in France (conto no "Saturday Evening Post"), Elaine (conto na revista "Story"), This Sandwich Has No Mayonnaise (conto na revista "Esquire"), The Stranger e I'm Crazy (contos na revista "Collier's")
1946 - primeiro esboço de The Catcher in the Rye, não editado; Slight Rebellion Off Madison (conto na "The New Yorker", estréia nessa publicação)
1947 - A Young Girl in 1941 with No Waist at All (conto na revista "Mademoiselle") e The Inverted Forest (conto na "Cosmopolitan")
De 1948 a 1953 - Todos os contos de Nine Stories saem em "The New Yorker" e em "Harper's", e mais A Girl I Knew (conto em "Good Housekeeping"), Blue Melody (conto no "Cosmopolitan") e Ocean Full of Bowling Balls, conto inédito sobre a família Glass.
1951 - The Catcher in the Rye (livro)
1953 - Nine Stories (livro)
1955 - Franny e Raise High the Roof Beam, Carpenters (contos em "The New Yorker")
1957 - Zooey e Seymour an Introduction (contos em "The New Yorker")
1961 - Franny and Zooey (livro)
1963 - Raise High the Roof Beam, Carpenters and Seymour an Introduction (livro)

a. Em Last Day of the Last Furlough, aparece pela primeira vez o nome Holden Caufield.
b. Em I'm Crazy, Holden Caufield aparece pela primeira vez como personagem central.
c. Com A Girl I Knew, Salinger aparece pela primeira vez na edição anual do "Best American Short Stories".
d. Um dos contos de Nine Stories, Uncle Wiggly in Connecticut, foi levado ao cinema por Samuel Goldwin em 1950 com tal deturpação da história que Salinger, daí por diante, não deu mais autorização para ninguém encenar, por qualquer meio que fosse, qualquer trabalho seu.
Aspas a granel:

"Estou quase terminando o livro do Saramago. Gosto dele, os seus livros têm um quê de episódios de Seinfeld." (Claudio Andrés Téllez)

"A vaca está para a égua assim como o vácuo está para o ego." (do blog Protensão. Cheguei até lá através de alguém que disse que o blog parecia com os escritos Millôr Fernandes. Boa pedida para os apreciadores da infame arte do trocadilho.)

E para encerrar, esse elogio à nerdice:
"Existem 10 tipos de pessoas no mundo... As que conhecem binário e as que não." (Alex Barp, Labview R&D, National Instruments). Via Cataplum.
Rafael Gomez, repórter da BBC na loura Albion e antigo companheiro de outras internetadas, conta para a gente como foi o dia em que Londres parou para dizer não à guerra.

19.2.03

Não era bem isso
" [...] all parentheses and dashes are syntactical defeats. They signify an inability to express one's ideas sequentially, which, unless you're James Joyce, is the way the language was meant to be used. Reality may be simultaneous, but expository prose is linear. Parentheses and dashes represent efforts to elude the responsibilities of linearity." (Paul Robinson)

Citação feita há algum tempo em Por um Punhado de Pixels. Levando-se em conta o tipo de redação mediana que se encontra na rede atualmente, poderia-se acrescentar as reticências à lista de entulhos que atrapalham a linearidade de um texto, pelo menos do modo excessivo como são usadas. Com parcimônia, indicam continuação (ao infinito?), vaguidão, ironia até. Como vírgulas, só indicam a incapacidade do escritor em elaborar meios para se expressar. Por essas e por outras é que a Ana Veras sugeriu que começassem a fabricar teclados com as reticências já prontas em uma tecla...
...o drible não é, senão, um sopro divino. É como um verso. É como uma canção. Nasce, inesperadamente, irresistivelmente. Drible é invenção e invenção ninguém planeja. O drible simplesmente acontece e acontece a despeito do driblador.
"O título dado no Brasil -- "O Apanhador no Campo de Centeio" -- resultante de uma tradução literal (por imposição do próprio Salinger), conquanto tenha agradado a ponto de ajudar a consagrar o livro, não é de sentido facilmente compreensível. Foi inspirado, como diz o autor no curso do romance, num verso de Robert Burns, poeta escocês. A locução de in the rye, traduzível por "no campo de centeio", é,
entretanto, uma expressão idiomática que significa "perigo" ou "dificuldade", sentido que sem dúvida lhe emprestou Burns em seu poema. O apanhador, ou pegador, é o jogador de beisebol, incumbido da defesa. O título, portanto, simboliza o ideal manifesto pelo personagem Holden Caufield: defender as crianças que estivessem expostas ao perigo"

(Retirado do folheto promocional Conheça J.D. Salinger - notas sôbre sua vida e sua obra, elaborado pelo Departamento de Divulgação da Editôra do Autor Ltda. e encontrado dentro de uma edição de 1970 de Franny e Zooey, da mesma editora. Perdão -- editôra.)

18.2.03

Hierarquia
Ilustrando as manifestações de sábado pela paz, foi encontrada essa pichação na porta do banheiro do restaurante Lamas:

Fora Bush!
Fora Blair!
Fora Mauro Ney e Montenegro!


Aos não-cariocas: Mauro Ney e Montenegro são dois cartolas do Botafogo de Futebol e Regatas, recentemente rebaixado à segunda divisão do campeonato brasileiro...
Ecos do fim de semana
"Tirando o Rafael Lima, todo mundo aqui nessa mesa é fascista." (Paulo Polzonoff Jr.)
"Não li os clássicos, nem os essenciais, nem os medianos, nem os necessários. Nunca ouvi as aveludadas vozes do jazz nem os cantos celestiais da música erudita. Sou um pésssimo decorador de frases e pensamentos soltos. Tenho graves dificuldades para a argumentação filosófica. Mas será preciso tudo isso para descobrir os prazeres de ser educado; de saber acariciar um corpo feminino; de gargalhar insanamente com pessoas amigas; de ter a certeza de que o uísque pode levar ao melhor dos mundos?"

E o Bruno ainda vem com aquela audácia de assassinar o blog!

14.2.03

Hoje é dia de Fabio, Bruno, Polzonoff e Alexandre na área. A cidade vai ferver.
Agora este blog pede publica e educadamente licença à todos para assumir uma posição mais à direita.
"Foi-se a carrocinha, foi-se este último bastião da moralidade pública, foi-se também Nelson Rodrigues que neste momento estaria ao meio-fio, a baba santa escorrendo-lhe por um canto da boca. Sacramentaria aos ventos ateus: ''Só a carrocinha salva a família! Só a carrocinha faz sabão do deboche!''
Joaquim Ferreira dos Santos, o melhor texto carioca da imprensa nacional e ponto.

11.2.03

Uma História Real
Como eu já devia ter imaginado, depois de uma semana de atualização furiosa, o Lisandro começou a achar que aquilo era completa perda de tempo e matou o blog-com-nome-de-palíndromo dele, Oto come MocotÓ. Típico. Duas semanas depois, me escreve dizendo que, futucando de bobeira nos bits, acabou começando outro blog quase sem perceber. Mais típico ainda. Eu que não vou me dar ao trabalho de ficar atualizando o endereço aqui, que eu conheço bem ele e não faço mais nada da vida. Mas como o cara continua escrevendo muito bem, trago uma amostra pra cá:

Viva a assistência social!
Essa eu ouvi de fonte interna:

A secretaria municipal do bem estar social de Rio das Ostras recebeu uma ligação um tanto quanto insólita. Um dos paraplégicos recentemente beneficiados com a distribuição de cadeiras de rodas motorizadas estava na prefeitura de Búzios e pedia ajuda para voltar. Perguntado como havia chegado lá, ele respondeu que atravessara todo o trajeto de quase 40Km de cadeira de rodas; só que, ao chegar, as baterias que alimentam o motor da cadeira arriaram e ele ficou sem meios para voltar.

- Por que você foi até aí de cadeira de rodas? - o funcionário da secretaria de Rio das Ostras perguntou.
- Agora que estou motorizado, você acha que eu ia perder a oportunidade de impressionar as gatinhas de Búzios? - respondeu o galã-móvel.

É tão insólito que só pode ser verdade.


E teve gente que ficou impressionada com a história daquele velhinho que atravessou um estado montado num cortador de grama. David Lynch, você não sabe de nada...
Repositório
A primeira idéia era só uma nota para recomendar O Poder da Palavra, artigo de Marcelo Träsel (do Martelada) para a Fraude, mas como sempre acabei me perdendo pelos meandros do portal e encontrei muito mais: o manifesto do Movimento de Miséria Auto-Sustentável ou Neo-Thoreuniano, um jogo dos sete erros entre o Fórum Social Mundial e o Fórum Econômico Mundial -- aliás, a melhor cobertura dos bastidores do FSM/2003 foi da Fraude, mostrando impressões dos repórteres, dos acampados e até o anedótico que ninguém viu. Também ganhou uma coluna por lá o Alexandre Matias, ex-editor da revista e do portal Play, antes da reorientação editorial pela qual ela passou. Ainda que eu implique com uma mania que ele tem de explicar tintim por tintim o que o mundo é e como veio a ser em cada artigo -- nunca consegue se focar num tema só; começa falando de rock e em alguns parágrafos já chegou a drogas psicodélicas, Kennedy, satélites artificiais, Deus -- gostei desse texto, entre outros. E tem ainda um blog coletivo. A Fraude já é um notável repositório de conteúdo.
Dia de luto para o cinema brasileiro: faleceu José Lewgoy. Figurinha fácil de se encontrar nos cinemas de rua, Lewgoy andava apoiado numa bengala, fosse para as sessões de começo de tarde, onde a concentração de aposentados é regra, fosse nas premiéres de meia noite no Leblon -- aos 82 anos de idade.

10.2.03

Depois de anos queimando a mufa, Hernani Dimantas reúne a suma de suas idéias no livro Marketing Hacker, com lançamento marcado para o dia 24, cujo prefácio pode ser lido no Buzzine. Para quem não conhece, há ruminações em tempo real no blog Marketing Hacker e uma rápida e certeira entrevista com Hernani no Burburinho.
Tem gente que pega erros de continuidade, tem gente que percebe incoerências históricas e tem gente que tem o olho afiado para a tipografia que aparece em filmes.
Cesar Valente assinala a Farra do Boi catarinense em outra perspectiva:

"Os espanhóis podem correr pelas ruas, no “encierro” da festa de San Fermín, em julho, atrás ou na frente de bois, com direito a proteção policial, transmissão pela TV e procissão católica. Estão preservando suas tradições comunitárias, mantendo viva aquela liga sutil que transforma aglomerados humanos em nações. Mas o pessoal pobre que vive no litoral de Santa Catarina não pode brincar com um boi sem ser desrespeitado e chamado de tudo que não é."

"Não tem gente mais generosa, hospitaleira e compreensiva com a dificuldade alheia. Gente que aprendeu, nas dificuldades da vida no mar, a trabalhar e viver em equipe. Gente que trabalha muito, ganha pouco e tem o direito de se divertir correndo atrás ou na frente de um boizinho de vez em quando. Como seus primos e parentes que vivem hoje na Espanha e em Portugal."

7.2.03

Teatro sempre lembra umas histórias boas, porque ainda é tratado com certa reverência pelo público, ao contrário do cinema, onde conversar ao celular ou ao vivo são comportamentos padrão (no teatro sempre há chance do ator interromper a cena e passar uma descompostura no mal educado em tempo real e foro público).

* * *

A complicada encenação de Liberdade, Liberdade -- complicada porque a peça quase não foi liberada pela Censura -- enfrentou um problema a mais do que o mau agourento clima de perseguição política da época, 1965, logo após instauração do governo militar. As cadeiras do teatro eram antigas e não paravam de ranger; o barulho atrapalharia (se não inviabilizasse completamente) a encenação. Ciente disso, Millôr Fernandes bolou um caco para Flávio Rangel, logo no começo do texto, que dizia mais ou menos o seguinte, em tom bem grave: a partir daquele momento, cada espectador deveria escolher sua posição, fosse na direita, fosse na esquerda, fosse ao centro, e deveria permanecer nela. E assentia: mas é imprescindível que cada um permaneça nela!, porque, se ficar se mexendo, vai fazer barulho e ninguém vai escutar nada do texto...

* * *

A praxe nos espetáculos de hoje é uma gravação solicitar educamente que se desliguem celulares e aparelhos eletrônicos durante a exibição, após uma infindável lista de agradecimentos a patrocinadores, produtores e órgãos públicos. Humor pode se manifestar de várias formas, e até nessa gravação eu já o vi penetrar: em peça de Nelson Rodrigues encenada no idem, com patrocíno, pasme-se, do Ronaldinho (Nazário, aquele), após a lenga-lenga habitual sobre pagers e celulares, a voz misteriosa dizia: "... e pedimos ainda, que se os senhores espectadores tiverem balas ou bombons em seus bolsos, desembrulhem-nos e coloquem na boca agora".
Depois de abrir a editora, Sonia Nolasco decidiu colocar no ar, por enquanto ainda em estágio bastante embrionário, a página oficial de Paulo Francis. Inaugura com um texto contido na sua emoção, fotos dos gatos, amigos, viagens, tudo em flash. Aguarda-se a disposição de textos on-line, sobretudo aqueles que não receberam lombada.
Arlequim
Durante o século XVIII, as cidades italianas foram governadas ora pelo reino da Espanha, ora pela Áustria, além da interferência do Papa. O dramaturgo veneziano Carlo Goldoni, trabalhando em Perúgia, Veneza, Milão ou Roma, e casado com uma genovesa, teve que aprender a lidar com o jogo de pressões políticas ao seu redor para viver. A par dessa informação, fica mais fácil entender porque sua peça Arlequim, servidor de dois patrões, tornou-se um clássico, sobrevivendo por mais de 200 anos, cinquenta dos quais reencenado ininterruptamente pelo Piccolo Teatro de Milão.

Em Arlequim estão elementos herdados da Commedia dell'Arte: pantomina, máscaras (na montagem em questão, pintadas ao rosto, como nos clowns, ou feitas em próteses de látex), malabarismos circenses, interpretação caricatural, todo o arsenal que enche de vida um palco e de movimento, luz e cor os olhos do espectador, num jogo de cena que lembra um balé, um número de picadeiro, um bailarina a girar no espelhinho da caixinha de música. Além do personagem título, pelo menos mais dois são arquetípicos: Pantaleão, o velhote velhaco, e Doutor, o gorducho latinista. Teria um sabor estranhamente anacrônico se não fossem tipos até hoje emulados dramaticamente em qualquer folhetim ou filme, de maneira menos ou mais clara (A Viagem do Capitão Tornado), e se não fossem retratos tão bem feitos da figura humana, qual pintados por Moliére, não por coincidência o modelo de Goldoni.

Assistir a uma montagem de Arlequim, servidor de dois patrões, é embalar-se com a melodia amena do cravo bem-temperado, é adentrar um mundo de nobres envolvidos em artimanhas financeiras e servos dando tratos à bola para atendê-los, e rir dos erros cometidos nessa tarefa. Como é agradável essa capacidade de se abstrair da poeira e do calor lá fora (o ar condicionado ajuda bastante) deixando-se levar pela imaginação até Veneza, um passeio de gôndola na mágica Veneza renascentista, e desejar ser um nobre daqueles servidos por criados fazem-tudo -- de preparar uma refeição a buscar uma carta no correio -- para poder andar com botas de cano longo e chapéu de três pontas e disputar elegantes duelos de florim, a arma correta para se resgatar a honra com sangue (e não pesados e desajeitados sabres, que só cabem em duelos de filmes mentirosos).

E como se não bastasse, Corto Maltese me aguarda no criado-mudo em Fábula de Veneza.

6.2.03

Ficar maravilhado pela descoberta de um quadrinho raro ou clássico perfeitamente digitalizado e disponível para leitura na rede causa uma sensação gratificante em qualquer leitor de longo curso. Mas leitor de longo curso vai ao delírio mesmo quando encontra uma pérola como o Famous Bus Rides # 1.
Entropia
Se o tempo que você ganha com tudo organizado é menor do que o tempo que você gasta para organizar tudo, então não vale a pena se organizar.
Um porém: no limite, essa equação fura; se você se organizar cada vez menos, ao ponto de nunca organizar nada, não conseguirá fazer coisa alguma.

5.2.03

Aspas para Elesbão:
"Louvo o empenho geral pela informação e a busca de referências externas que possam nortear tendências e propostas de estudo no contexto internacional, mas há também um viés passivo, uma excessiva prostração em descompasso com a primeira pessoa. Poucos largam do voyeurismo para trabalhar em algo. Poucos mesmo, de afligir."

"Não adianta a preguiça, e cabe a qualquer um a dedicação para o crescimento. Podemos e devemos recuperar o que a mistura nos proporciona. Aplauda e reconheça o mérito estrangeiro, mas encare-os nos olhos. Chega de reprodução."

Mais aspas para MauVal:
"se tem um mundinho que eu não consigo engolir é o da moda.
repito, nunca vi uma matéria, uma reportagem, um perfil, um "qualquer coisa" com quem quer que seja da cena fashion (arghhhhhhhh...) brasileira que falasse algo de positivo."
...
"mas essa turma tem um valor - ela conseguiu fazer uma realidade que interessa a pouquíssimas pessoas se tranformar em manchete de primeira página! louvável!
equivale a um programa de DUB em FM ser comentado pela fátima bernardes.
tudo bem, vamos guardar a devidas proporções, a indústria da moda gera muitos empregos e desenvolve uma técnica de produção exemplar.
mas não é por isso que ela tem todo esse espaço, né?
já tô legal de tanta "gente bonita". domingo? maraca aqui vou eu!"
Do Repente: número 2! Tema: café. Vício do qual estou livre.
Help Build a Better America: uma sugestão do Crumb para tempos de guerra iminente?
Saiu a primeira crítica ao livro Ira Implacável do meu amigo LEM, e pode ser lida na Tribuna OnLine. Eu achei que Ira Implacável tinha nome de filme de domingo à noite. Com o Charles Bronson.

4.2.03

Nas décadas de 20 e 30 ficaram populares nos E.U.A. gibis pornográficos vagabundos, vendidos de mão em mão e não raro, parodiando personagens famosos das tiras de jornal. Como nenhuma gráfica queria imprimi-los, os originais eram levados para a cidade fronteiriça de Tijuana, no México, por isso ficaram conhecidas como Tijuana Bibles, bíblias de Tijuana. Will Eisner conta em suas memórias, The Dreamer, que recebeu uma proposta da máfia de seu bairro para desenhar aquelas revistas, logo no comecinho da carreira, antes de montar o estúdio Eisner & Iger, e diz que aquela recusa foi a decisão editorial mais difícil de sua vida. Aqui no Brasil aconteceu fenômeno semelhante entre os anos 50 e 70 com os Catecismos de Carlos Zéfiro, funcionário público aposentado cuja identidade verdadeira foi descoberta apenas no começo dos anos 90.

Entre os personagens homenageados nas Tijuana Bibles, estão alguns ícones dos quadrinhos: Nancy, Terry e os Piratas, Popeye e Dudu, a pequena órfã Annie, Pafúncio e Marocas, Archie e Verônica, Capitão César, além do desconhecido e politicamente incorretíssimo Eclipse, o estafeta, um bamboozled que levaria R. Crumb ao delírio.
Ensina para essa turma, Eva:

Uma coisa é Esquizofasia.
Um modo esquizofrênico de expor idéias.
Uma linguagem confusa para uma época idem.
Uma coisa é escrita automática, e outra é não saber usar vírgulas e pontos.
Admiração
Na época em que fazia uma página dominical para O Dia, Millôr Fernandes disse que a coisa que mais admirava em Glauber Rocha não era nem sua diarréia verbal, nem seus delírios visuais, mas o fato de que ele conseguia estar eternamente com barba de três dias, nem mais nem menos, exatamente três dias. Pois bem, parafraseando-se-o, posso dizer que o que mais admiro em Domingos de Oliveira não é nem o fato dele ter revelado Leila Diniz ao mundo, nem a agilidade dos diálogos ou o declarado amor pela cidade que demonstra em seus filmes; o que mais admiro é seu falar bêbado. Ninguém mais no Brasil inteiro (salvo alguns políticos) fala daquele jeito e é levado a sério.