29.3.03

Dez anos de Vertigo
Tudo começou mesmo 20 anos atrás, quando cometeu-se o desatino de entregar um personagem meio caído, o Monstro do Pântano, para Alan Moore revitalizar. O bruxo inglês não negou a raça e encheu as histórias com magia, cruzou referências culturais (de Pogo, de Walt Kelly, aos caprichos de Goya), inventou um detetive coadjuvante, sósia do Sting, entre outras artimanhas, levando a popularidade, a preocupação dos editores e a complexidade das tramas a índices antes inalcançados. Depois foi Grant Morrison a fazer o mesmo com a Patrulha do Destino e o Homem-Animal (tendo a metalinguagem por tônica), e finalmente, a mais forte mágica: Sandman, de Neil Gaiman. Por volta de 1993, Gaiman já era uma celebridade e a DC Comics achou por bem reunir em selo próprio as bizarrices que se espalhavam pelos seus títulos, reservando um espaço para maior experimentação e ousadia. O irônico é a revolução criativa ocorresse justo dentro da DC, berço e lar do Super-Homem, tradicionalmente tida como conservadora e identificada com o partido republicano -- pelo menos até que o Lanterna Verde de O'Neill e Adams quebrasse essa imagem, em 1971.

Na edição promocional de lançamento em 1993, Karen Berger conta que aquela linha de quadrinhos já houvera sido chamada de horror, terror, mature, adult, fantasy, antes que se decidisse batizá-la com o nome do mais sinistro filme de Hitchcock. Novos títulos foram criados para coadjuvantes promissores, desenvolvidos por artistas capazes de preencher as páginas com a beleza e a supresa que, informalmente, já identificavam aquele micro-universo. Dois anos depois, Neil Gaiman encerraria Sandman, logo seguido por Grant Morrison... Mas o meme já havia infectado e em finais da década de 90 havia uma fila de roteiristas, cada um com uma idéia mais maluca do que a outra, na porta dos escritórios da DC candidatando-se a novo hype dos quadrinhos. Apesar das apelações, o selo manteve a dignidade pelos últimos 10 anos e ainda publica considerável parcela do que há de legível no quadrinho de indústria, como Transmetropolitan ou 100 Balas. Em comemoração, foi ao ar uma mini-página para fãs, onde Gaiman, para não perder o hábito, nos brinda com mais uma fina peça de humor britânico numa entrevista:

Who was your first favorite super-hero?
It has to be Batman. I remember in about 1965 my dad mentioning Batman, and I asked him what that was, and he said it was a man who dressed up like a bat to fight crime. And I didn't know there was an animal called a bat so I associated it with a cricket bat, and I thought it was a man who literally dressed up like a cricket bat. It was really peculiar but intriguing. And then the TV show started and I watched it and I was really puzzled because he didn't look like any cricket bat I had ever seen.

28.3.03

Na dúvida, desconfie
Foi assim: o nome do Michael Moore soou depois do the winner is, ele subiu ao palco e, cumprindo as expectativas gerais, fez o discurso desagradável criticando a guerra que todo mundo esperava -- protesto simbólico, pacífico, dedinhos em , é outra coisa. Ali foi o arremessar de pedras, mesmo. No dia seguinte, fui conferir o texto corrido do que ele havia dito e, lá no final -- depois do refrão instantâeo Shame on you, mr. Bush! -- ele dizia assim, "...And any time you've got the Pope and Dixie Chicks against you, your time is up". (referia-se à declaração delas em um show). Na página pessoal, Michael já havia listado 20 coisas que você pode vazer para vocalizar sua oposição contínua à guerra. A décima primeira é: "Support the Dixie Chicks: call country music radio stations and keep requesting their songs."
Coincidência? Crocodilo debaixo da cama? E se algum maluco por aí descobre, apenas com a informação gratuitamente disponível na internet, que o Michael Moore tem uma ligação qualquer com as Dixie Chicks: é amigo do produtor delas. É sócio da gravadora. Também estava investindo num conjunto feminino de música country, e deseja criar um hype de mercado. Sei lá, estava a fim de uma das Chicks! Como é que fica? Afinal, a gente não tem sempre que desconfiar dos idealistas que lucram com seus ideais? Ou paranóia só pode funcionar para um lado?

27.3.03

- Qual é o seu nome?
- Alexis Zorba. Me chamam de "Pá de Forno", de brincadeira, porque sou magro e de cabeça comprida. Mas podem falar! Me chama ainda de "Passatempo", pois durante algum tempo vendi caroços de abóbora torrados. E também de Míldio*, por toda parte onde estive, pois parece que faço muitos estragos. Tenho ainda outros apelidos, mas isso fica para outra vez
...

Zorba o Grego, de Nikos Kazantzakis. Filmaço com Alan Bates, Anthony Quinn e Irene Papas, inspirado num livro ótimo para encher a cabeça de minhocas quando se o lê jovem -- e melhor ainda de se reler quando adulto, sobretudo se já conheceu alguém parecido com Alexis Zorba.

*Míldio = praga agrícola
Ser dentista deve ser ótimo para quem gosta de monólogos. Por que será que poucos intelectuais são dentistas? (mais uma do Ram)

26.3.03

Deve ser o projeto mais multi-multi-multi-mídia que conheci: começou como livro (que, dizem, vai sair no meio do ano), virou exposição, festa -- isso mesmo: festa -- semanal e agora é uma mistura de blog coletivo e revista eletrônica: Pessoas do Século Passado.

25.3.03

Recordar é...
Donald Rumsfled cumprimenta Saddam Hussein: "os EUA e o Iraque compartilharam muitos interesses comuns".
Estamos aí para o que der e vier.

24.3.03

Eminem não deveria ter ganho o oscar de melhor canção porque rap não é música. É parecido com.

23.3.03

Tou apreensivo à beça com esse filme do Daredevil. Por um motivo muito simples: foi o quadrinho que me fez começar a ler quadrinhos. Tudo culpa do Frank Miller.

Quando o Miller foi promovido à equipe responsável pelo gibi do Demolidor (uma das nossas poucas traduções bem sucedidas, se bem que Hq de humor sempre teve seus bons momentos, vejam só o Ferdinando Buscapé), em 1979, era apenas um jovem de Vermont a quem Jim Shooter, à época editor-in-chief & mão-de-ferro da Marvel, passou o colete de titular na sua política de estimular a competição interna entre novos talentos. Miller mudara-se para NY e não só não escondia como fazia questão de repetir aos quatro ventos sua paixão pela cidade, no capricho com que retratava o topo dos prédios e o perfil dos arranha-céus, ora servindo de cenário para as estripulias aéreas do Demolidor, que só tem menos milhagem no céu de Manhattan do que o Homem-Aranha. Em 2 anos, Frank Miller assumiu o roteiro, levou a periodicidade para mensal e acabou delegando a maior parte dos desenhos ao arte-finalista Klaus Janson.

Revolução é uma palavra apropriada para descrever o que ele fez com um personagem aparentemente limitado. Desenvolveu núcleos narrativos novos -- o escritório de advocacia Nelson & Murdock, a redação do Clarim Diário, os meliantes do Josie's Bar, os gangsters que orbitavam o Rei do Crime, o relacionamento de Matt Murdock com Heater Glenn e Natasha Romanoff -- sem descuidar de nenhum; explorou todo o potencial narrativo dos sentidos superdesenvolvidos que o Demolidor tinha ao limite, particularmente seu "radar" (como esquecer da história que se passava completamente dentro da cabeça do Demolidor, quando ele perdeu e tentava recuperar o controle do radar); criou personagens marcantes, como Elektra, responsável por toda uma legião de leitores e leitoras; inventou uma organização de ninjas assassinos que se desfaziam em fumaça, operando à noite, em plena Big Apple, e fez aquilo soar verossímil (inspirando depois o maior sucesso comercial da década: As Tartarugas Ninja). Isso tudo só no roteiro.

Mais: misturou a seca narrativa em primeira pessoa dos policiais de Raymond Chandler com litros de nanquim a encher as páginas, criando um clima noir copiado exaustivamente nos anos seguintes; chupou de Hitchcock o ritmo de suspense, adaptado para as páginas com truques de Neal Adams, Bernie Krigstein e Gil Kane -- e mais uma meia dúzia inventada por ele, mesmo (em uma história chamada Stilts, literalmente pernas-de-pau, retalhou a página em quadros verticais, mantendo a ao longo de todo o andamento a impressão de "estar nas alturas"); copiou o hábito de Will Eisner em camuflar o título das histórias no cenário; lembrou a quantidade infinita de formas inesperadas, elegantes, funcionais, geniais como se pode diagramar uma página de quadrinhos.

Ainda hoje a leitura de DareDevil #182 me é de um prazer particular, com destaque para as primeiras páginas, onde o informante do repórter Ben Urich é assassinado ao lado do próprio, com uma adaga nas costas, pela mercenária Elektra em pleno cinema poeira, encerrando-se com o close no rosto suado de Ben, enquanto o cadáver jaz em seu ombro. A coleção completa dos trabalhos de Miller no Demolidor ainda é minha escolha para a ilha deserta, atualmente só balançada pelos álbuns de Corto Maltese (sobretudo Os Celtas e A Balada do Mar Salgado).

Ou seja, espero que os caras não tenham feito lambança.

21.3.03

Ironia? O dia escolhido para o primeiro bombardeio maciço sobre Bagdá é o dia do ano novo iraniano. Aladim, Sinbad e Ali Babá devem estar todos acuados em seus abrigos subterrâneos.

20.3.03

Então me diz: pra quem você trabalha?
Pra você ou pra outra pessoa ou pra uma empresa? Quem é dono do seu esforço e lucra com ele? Depois que se passa pela tarefa de descobrir o que se quer da vida, [...] perseguir esse objetivo é a única coisa que importa. O resto é parada pra se recarregar até chegar lá. Não quer dizer que só quem abre o próprio negócio é livre; às vezes muito menos. O negócio é descobrir o que quer, gostar do que se faz e correr atrás disso até não poder mais.

Conversei com dois amigos recentemente: um passou em concurso na área de direito e outro é músico. Ambos sabem o querem fazer da vida e ganham bem. O advogado está feliz, já tem o caminho trilhado e é só ir subindo na direção especializada que quiser. O músico não, porque trabalhava numa firma fazendo música pros outros [...] Este não se importa até de ganhar o mínimo pra sobreviver, desde que tenha tempo de se dedicar ao que gosta.

A cultura corporativa é baseada no medo [...] e na necessidade de encaixe: você precisa se encaixar pra trabalhar, se encaixar pra se relacionar, se encaixar pra ter direito, se encaixar pra viver. [...] São necessidades simplesmente inventadas pra alimentar uma máquina de engrenagens há muito enferrujadas, que produzem grana e conforto pra quem sempre vai aproveitar, e dar ordens, e injetar o medo que é o óleo da máquina.

Vale a pena trabalhar pra eles? Se for pra juntar grana temporariamente e bancar o que que você realmente quer, vale. Se puder subir na estrutura, virar sócio, comprar ações que sabe -talvez valha. [...] Uma empresa é uma idéia, normalmente uma idéia-vírus; algumas existem há mais tempo que você, são um ser meio amorfo e terrível. Estariam vivas, mais do que você, te deglutindo nas entranhas toda vez que você bate o ponto? [...] Os EUA são atualmente um organismo inteiro que funciona dessa maneira e estão prestes a fagocitar outro (muito pus vai ser criado nessa).

O século 21 provavelmente vai mostrar um reforço da cultura de Negócios na figura do homem-empresa, da mulher-empresa. Há freelancers demais à solta pra isso. [...] E no fim das contas, a menos que você quebre a cara bonito, o caminho mais difícil é o que mais vale a pena. Porque a vida é curta e quando você se aposentar da empresa X ninguém vai te dar nada além da obrigação, porque firma não é mãe. Ela trabalha pra si e não pra você. ... E não vai aparecer ninguém dizendo que se chama Spartacus pra te libertar. Você vai ter que quebrar o grilhão por sua conta.
Hector Lima, na mais recente Hectorama.
— Bom dia, mestre Graça.
— Você acha, meu filho?

Hoje é aniversário de Graciliano Ramos. De presente, trecho de um dos famosos relatórios que desvelaram seu talento literário. Ele nunca imaginaria que o estilo seco de frases curtas tornar-se-ia quase uma norma de redação.
Tudo quanto escrevo e falo, escrevo e falo a sério e corresponde ao que faço e ao que penso, literalmente, nos mínimos detalhes e até as últimas conseqüências. Menos quando estou brincando.(Guia prático de leitura do letra miúda, por Guilherme Quant)
ONU: * 1946 - + 2003

19.3.03

Raridade: páginas do fanzine que Alan Moore fazia quando adolescente: Daemonum 1, 2, 3 e 4.
Quem vai comprar doce de leite quando pode comer rapadura açucarada? (Dica do Lisandro)

18.3.03

A edição #296 da Vogue brasileira veio inteiramente dedicada: Tudo sobre Gisele. Auto-proclamada primeira revista no mundo completamente sobre a über-modelo, disseca sua persona em entrevista longa, perfil, histórico (ainda não dá para falar em biografia), opiniões, gostos (o feijão-com-arroz middle brow) e fotos, muitas fotos, tudo na linha editorial de uma revista de moda, ou seja, aquela retórica laudatória pastel de vento, que, quando não está dando exemplo de elegância e sutileza ao escrever, comete deslumbres como esse de Patricia Carta: "Glamour é tudo o que se busca, tudo o que se preza e fashion é como tudo deve ser."

Todas as reportagens sobre Gisele Bündchen são tomadas por esse babalaô moderno da eficiência, profissionalismo (o fotógrafo Jacques Dequeker conta que ela "é tão concentrada que chegou a dizer quantos cliques faltavam para acabar o filme") & competência, idolatrado como fórmula de sucesso por dez entre dez self-made-men e -women, sem falar nos onipresentes família & humildade -- alguém aí lembra das palavras do Cafu quando recebeu o caneco? Ao menos, Constanza Pascolato ainda lembra que foi um discurso de Bill Clinton em 21 de maio de 1997 criticando o look heroin chic, dominante nos editoriais de moda até então, como parte da política anti-drogas norte-americana, que abriu espaço para o modelos de tipo físico mais voluptuoso -- exatamente a brecha por onde Gisele entrou -- vindo a ser eleita padrão de beleza pela Vogue norte-americana em julho de 1999. Ou seja, trabalho duro, mas também oportunidade, e a imponderável sorte.

Sempre me foi de grande espanto a atitude de todos aqueles que, desassistidos pelo Estado na infância, quando este lhes foi omisso, se não propriamente prejudicial, ao receberem troféus, prêmios ou medalhas, a primeira coisa que fazem é agradecer e compartilhar a glória com seu país: a própria Gisele, Guga, os Ronaldinhos Nazário e Gaúcho. Esperava que a revista me ajudasse a esclarecer um pouco da mecânica desse comportamento -- em vão. Há a repetição de anúncios publicitários antigos, anteriores ao julho de 99, de quando Gisele ainda não era Gisele; nas declarações a respeito, a típica bajulação a quem está por cima; há um surpreendente (ao menos para mim) cobertor de elogios a Leonardo DiCaprio ("cordial e afetuoso com os outros...dos poucos que cultua valores morais") e mais o quê? A sensação inevitável de vazio que essas leituras deixam.

A propósito
Hoje, o Anselmo Gois disse que o cheque que ela tinha entregado ao Programa Fome Zero era de mentirinha. Como é que é?!
The Arrogant Empire: excelente texto da Newsweek sobre a iminência de conflito no Iraque e o modo como o mundo vê os Estados Unidos da América, com direito a contextualização histórica e análise política. Indispensável. Eu tinha visto a revista nas bancas, mas foi o Nemo Nox quem leu e avalisou.
Danilo Amarar mostra que também é chic ao registrar domínio: www.amarar.com
Cartaz visto no ginásio de Chicago antes da luta onde Acelino "Popó" Freitas defendeu o título de sua categoria, no último sábado: Porrada Popó

Cartaz visto no mesmo ginásio, ao fim da luta (vencida por Popó com nocaute no quarto assalto): I knew it

Eu simplesmente adoro essas coisas.
Rei Momo morto, Rei Momo posto
As notícias da misteriosa morte do Bussunda durante o carnaval podem ter sido exageradas, mas o fato é que as organizações Casseta & Planeta apressaram-se em reconhecer a verdade, e os colegas até mesmo choraram sua perda.

16.3.03

Convém não esquecer Millôr Fernandes
"Mas um dos defeitos que não pode ser tolerado pelo humorista é a própria vaidade. A vaidade vai bem ao comediante, por natureza extrovertido. O humorista, por natureza introvertido, sabe que bastará facilitar um pouco que o transformarão em estátua e mito. Mas aceitar isso será perder a substância fundamental do humorista."
(Profissões: limitações e deveres, in O Livro Vermelho dos Pensamentos de Millôr, edição revista e ampliada, 2000)

14.3.03

Belo e instigante. Sobretudo a coleção de símbolos de "jogue o lixo no lixo", as cidades tipográficas (resolvendo o problema da alfabetização de tabela com o habitacional) e o ensaio sobre como uma língua se desenvolve. Dica do Ez.

13.3.03

Sabe aquele negócio de ligar o rádio numa estação qualquer e se aborrecer porque tocam sempre as mesmas músicas, em sequências quase as mesmas? Pois é, parece que um carinha lá na Califórnia também notou isso e resolveu explorar. Não, não que ele tenha resolvido contratar uns DJs espetaculares e variar a programação musical --
pelo contrário. Já que a programação não mudava mesmo, por que não automatizá-la? Pôs uma coleção de canções num HD, escreveu um programa para pinçá-las e colocar no ar e voilá! Eis a primeira rádio sem DJ do mundo. Quem contou essa foi o Ram, que também observou o seguinte: na página da rádio não tem DJ no corpo de funcionários. Mas tem estagiário.
Esqueci
O que faltou dizer foi que o texto sobre Nomadismo moderno e transporte urbano que saiu na Falaê! é particularmente significativo para mim por ter sido o primeiro feito a partir de uma colagem de idéias originalmente atomizadas neste blog, este, aliás, um dos principais usos (sim! Blog também tem utilidade!) que tinha em mente quando iniciei a feitura do diário: anotar idéias para futuro encadeamento.

12.3.03

Fritando a liberdade
Quem conhece um pouco de inglês coloquial, sabe que as batatas fritas são chamadas em países anglo-parlantes de french fries, cuja tradução literal é: batatas francesas. Francesas, embora sejam os belgas a reivindicarem a invenção da fritura das batatas, mas isso é assunto para outra discussão, essa gastronômica, embora até o Asterix já tenha reconhecido.

Com a recente recusa da França na ONU em apoiar a intervenção militar no Iraque (nada como os eufemismos militares) proposta pelos EUA, os compatriotas de Voltaire estão sendo cada vez menos bem vistos nas terras ao norte do Rio Grande. Garrafas de vinho vertidas esgoto abaixo e a última espetada veio de uma lanchonete que trocou o nome das french fries para freedom fries (fritas da liberdade).

"Because of Cubbie's [dono da lanchonete] support for our troops, we no longer serve french fries. We now serve freedom fries", declarou, "It's our way of showing our patriotic pride".

A reportagem lembra ainda que há precendentes na História: quando o sentimento anti-germânico eclodiu na I Guerra Mundial, norte-americanos renomearam pratos como sauerkraut e hamburger para repolho da liberdade (liberty cabbage) e bife da liberdade (liberty steak).

Acredita-se que os gostos não mudam.
A inspiração para desenhar e vender camisetas apareceu em junho de 92, quando, na sorte de estar fazendo uma pequena viagem pela Europa, passei por um pequeno desentendimento com alguém em relação aos meus assentos reservados num trem. Eventualmente, essa pessoa, um europeu, reconheceu que eu tinha razão, mas enquanto estava saindo, ele disse, "Bah! Americanos!" ao que eu respondi, "Desculpe te desapontar, mas eu sou australiano."

Reza a lenda que assim começou a produção e venda de camisetas I am not American.
Trabalhador ganha ação contra uso de gravata, ou: mundo corporativo também tem dessas

Um trabalhador britânico ganhou hoje uma ação de discriminação sexual depois de protestar porque seus superiores o obrigavam a trabalhar com camisa e gravata, enquanto suas companheiras podiam usar camisetas. O auxiliar administrativo Matthew Thompson, de 32 anos, alegou perante um tribunal de Manchester que era injusto ter de se vestir formalmente durante suas horas de trabalho, porque as funcionárias que trabalhavam com ele podiam levar roupas informais, inclusive camisas de futebol, sem serem censuradas pelos chefes.

Matthew, que trabalha uma agência de empregos de Stockport, declarou estar feliz com a decisão do juiz, enquanto que o Ministério do Trabalho declarou estar muito insatisfeito e anunciou que vai recorrer da decisão judicial. "Não sou a favor de que se obrigue às mulheres usar também camisa e gravata, mas o que eu argumento é que não se exige delas roupas de trabalho específicas, como no meu caso", disse Thompson ao tribunal no mês passado.

O caso deste auxiliar administrativo é só o primeiro de outros 39 que serão levados à Justiça com a ajuda do sindicato Serviços Públicos e Comerciais (PCS). O
presidente do sindicato, David Burke, denunciou que os trabalhadores dos centros de trabalho podem ser multados em até 10% de seu salário e até serem demitidos se negarem a cumprir as normas de vestuário.

Fonte: Agência EFE

11.3.03

Informe da E.C.T.
Enio manda avisar: Patos e Fotos em endereço novo. Junto com a Telescópica, são os blogs mais musicais que conheço.
Talvez em comemoração aos 65 anos de transmissão da BBC para o Brasil, ou, mais provavelmente, adiantando o serviço para entrar em férias, Ivan Lessa ataca na sua melhor posição -- a de memorialista, relembrando os tempos de correspondente numa bela série: 1968, Bocas livres e pagas, Alguns tipos, Os Colegas, Eles e nós.
Falaê! Urbanidades
Saiu a edição nova do Falaê! cujo tema é Urbanidades, com dois textos meus: um, sobre Nomadismo e transporte urbano; o outro é a enésima versão de Norman Mailer, Copacabana e as badalhocas, sobre mobiliário urbano e o apego dos moradores à referências estranhas. Mais do que uma lida nos textos do especial (gostei particularmente de Mariana Le Gal falando sobre o metrô parisiense, do Vórtice da Vitrine de Fabio Victoria e de Dani Sigaud na Lua), vale uma percorrida geral na revista, com atenção para os textos do Edgard Reymann, o Bar do Nélson por Diga Mello, a mulher generosa e uma bela memória dos tempos de boemia no Amarelinho. Cumprimentos ao editor Augusto Sales.

10.3.03

Valha-me Nossa Senhora dos Anéis Apertados! O sexo casual já chegou na Veja: eu sou de todo mundo e todo mundo me quer bem.
A religião católica sempre esteve em confronto com a ciência? Teste seus conhecimentos e veja por si próprio.
A forma pode ser curta, mas a densidade deve ser maior
"O tema da violência tomou a sociedade, como se prova também no cinema. (...) Uma lista de alguns nomes que vêm se destacando (...) mostra como a preocupação com a realidade social caótica e brutal se tornou dominante: seu tema é o atomismo urbano, a psicologia violentada do brasileiro atual."
"Outra vertente dessa tendência, como se vê em blogs ou em manuscritos de concursos literários, é a do retorno do tom confessional, da primeira pessoa que tenta colar seus próprios cacos íntimos e tem escassa preocupação com nexos e estruturas maiores. Aparentemente a objetividade da narrativa sobre crime e corrupção (...) não teria muito a ver com esses diários internéticos, com essa literatura quase monológica. Mas tem. E a principal demonstração dessa convergência está na forma prosaica. As histórias policiais e os confessionalismos virtuais se encontram no ritmo telegráfico, na busca de uma escrita coloquial que é muitas vezes barata, na crueza evidente já no trato do idioma."
"O problema não está no tamanho, mas no tom. (...) A prosa brasileira que chega ao século 21 pode e precisa se tornar mais elástica, mais cromática, recorrer a maior variedade de recursos justamente para dar conta da realidade com mais riqueza e sutilezas."
Daniel Piza, no Estadão de ontem.

9.3.03

Separados no nascimento: Antonio Lopes (técnico do Vasco e ex-auxiliar do Felipão em 2002) e o estranho no ninho Jack Nicholson.
E uma garrafa de rum!
Você não é mais a mesma pessoa depois de tomar uma batida à base de vodka Ortroff. Não é Orloff nem Ortoff, é Ortroff.
(Ainda mais duas na mesma noite...)

Eu fico zoando, mas podia ser pior: podia ser vodka Artoff. Minha cabeça ficaria badalando com a ressaca da vodka Balalaika. A vodka Kamarada me faria companhia nas horas solitárias, ao contrário da vodka Orso Bianco, da qual eu só receberia abraço de urso. Iria às alturas com a vodka Sputinik, entraria na linha dura com a vodka Stolin e teria uma noite perigosa com a vodka Polanski. E terminaria a noite apoiando o governo aos goles da vodka Paloff.
Dica de primeira: Antigo Leblon, histórico do período plistocênico do bairro-irmão de Ipanema (vinda da Cora via Jean).
Nota de esclarecimento
Não têm fundamento os boatos -- que andaram espalhando por aí -- de que eu passei a semana de carnaval recluso num retiro espiritual em Visconde de Mauá, unido à comunidade do Santo Daime. Também não são verdadeiros os rumores de que viajei para Porto Seguro e passei os 4 dias de folia pulando nos trios elétricos locais, aditivado por capetas e lança-perfume. Sobretudo, são inverídicas as notícias de que vivi um tórrido romance com a modelo e atriz Luana Piovani na ponte aérea Rio-Salvador, entre um desfile na Apoteose e outro no circuito Barra-Ondina.

A quem interessar possa
Nenhum abadá foi ferido ou molestado durante a confecção desta nota.
"O Rafael cita Mortadelo e Salaminho e ainda fica dizendo que eu sou o ídolo dele!" --Jean Boechat, em algum momento na noite do DIB.

O Jean também estava organizando novos blocos para o ano que vem, talvez empolgado com a reportagem do NYT:

- o "Cordão do Bola Gato", onde a escolha da posição vai do gosto do freguês (tem a turma da pipoca e a turma da contenção);
- o "Bacalhau da Madrugada", com uma semana sem banho na concentração;
- o afoxé carioca-bahiano "Olha o Ilê Ayê Ai Ó";
- o bloco clássico do eu sozinho, conhecido como "Só antipatia";
- o já conhecido e tradicional bloco cultural do "Obodum".

Que eu me lembre, só se esqueceu de um: Osama nas Alturas, a sair, apropriadamente, em Santa Teresa, os foliões paramentados com umas máscaras de látex combinando turbante e barba, que deixavam todo mundo com cara de Osama, trazidas por aquela ruivinha (qual era o nome dela, mesmo?).

1.3.03

Agora é skindô lê lê!
VIII Dia Internacional do Bracarense

Já dizia Buñuel: "La tradición és una estatua que anda". Em nome da tradição é que dizemos: Vem aí o VIII DIB.

A Fundação Para o Dia Internacional do Bracarense tem o prazer de convidá-los para o maior evento anual de todos os tempos: Dia Internacional do Bracarense - oitava edição - 1º de março de 2003.

Esta tradição milenar se repete anualmente em 1º de março, com sucesso de público e crítica. Por acaso do destino, essa data também marca o aniversário da cidade do Rio de Janeiro, transformando nosso evento numa importante forma de comemoração.

Neste dia, todos devem se dirigir a Rua José Linhares, numero 85B, quase esquina com a Ataulfo de Paiva, no bairro do Leblon, na cidade do Rio de Janeiro (Lat:22° 53' - Long:43°17' - antiga capital do saudoso estado da Guanabara), Brasil.

Lá, todos desfrutarão das melhores iguarias e dos nectares servidos neste santuário, em total harmonia, alegria e paz. Esperamos todos vocês! Agradeço a atenção dispensada.

Assessoria de Comunicação
Fundação Para O Dia Internacional Do Bracarense - Fevereiro de 2003

Site oficial do Bracarense - não temos nada a ver com isso, ok? É só para informar.
Danilo Amarar manda avisar: deu no NY Times a transformação do carnaval carioca em indústria.

"É natural para qualquer forma de folclore evoluir e mudar, mas o desfile de Carnaval está se tornando um produto pasteurizado, confinado num ambiente frio no qual os criadores do samba não fazem mais as regras. Nós vivemos numa sociedade capitalista, então até mesmo algo como folclore está sujeito a massificação e comercialização.", declarou o carnavalesco Fernando Pamplona.

Dentre as causas e consequências da descaracterização do evento, o artigo aponta para o emagrecimento do Rei Momo, a substituição de temas folclóricos ou históricos nos sambas-enredo por assuntos de maior apelo comercial, quase sempre por fins de patrocínio; a invasão das alas por turistas estrangeiros que não sabem sambar nem cantar o enredo, vestidos em fantasias compradas a preço de ouro; a realocação das quadras de ensaio das escolas de samba para locais mais distantes da comunidade, onde as quadrilhas do tráfico dão as cartas e o uso da televisão para promover suas candidatas a atrizes-e-modelos, transformando a transmissão numa passarela de quase-celebridades.

(O problema não é bolinho de se resolver. Passo em frente à Praça da Apoteose todo dia há anos e acompanho a transformação pela qual ela passa nessa época, com o refrigerante, a cerveja e o plano de saúde onipresentes. Mas esse ano foi exagerado. Só a cenografia da entrada dos camarotes já é suntuosa, com desenhos do Lan, uma imitação de caverna e cartazes de propaganda imensos.)

O texto conclui mostrando que os blocos de rua talvez sejam uma saída para recuperar o carnaval, e que têm crescido expressivamente em número de participantes por serem mais democráticos do que os desfiles -- vai quem quer e não há ingressos aos olhos da cara. O mais divertido são as traduções para os nomes dos blocos: Christ's Armpit, Leopard's Breath, Meeting Without a Parade, Affinity Is Almost Love (respectivamente Suvaco do Cristo, Bafo de Onça, Concentra mas Não Sai, Simpatia é Quase Amor).

"Existe uma tendência a centralizar e domesticar o Carnaval, mas ela parece não estar funcionando completamente. O Carnaval recusa-se a ser dominado por uma forma ou estilo, por uma parada ou evento, e está voltando à vida novamente fora desses centros organizados, como os velhos hábitos reaparecem e são retomados.", conclui Roberto da Matta.