24.4.03

Alô Alô a Suderj informa: esse blog já está funcionando há muito tempo em outro endereço:
http://www.mondo-exotica.net/nacaradogol/
Redireciona aí, pô!

17.4.03

Na Cara do Gol
Este blog acaba de mudar-se para:
http://www.mondo-exotica.net/nacaradogol/
Atualizem seus apontadores
Cheiro de papel novo
Ainda no assunto, está nas prateleiras a primeira edição brasileira, que eu saiba, de poemas do Bukowski. Não é difícil defender a tese de que o melhor de sua literatura está na poesia, e o editor teve o cuidado de publicar junto da tradução os originais em inglês. Também não era difícil encontrar tais poemas lidos pelo próprio Bukowski, naquela voz enrolada de bêbado dele, nos dias de Napster.

Se bem que, levado a escolher um único (re)lançamento recente, minha escolha, hoje, iria indubitavelmente para a nova edição da Editora do Autor de Nove Estórias, por J.D. Salinger. Para fazer companhia a Franny e Zooey e Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira e Seymour, uma apresentação.

16.4.03

Saiu texto meu novo na Falaê!: Quixotes de Bukowski.
Dos jornais:
- Parabéns, Saramago! Depois de rasgar a fantasia cubana, quem sabe agora você descobre os crimes contra a humanidade de Stálin, Mao e Pol Pot.
- Declarações de ex-mulher motivam a prisão de fiscais. Ex-amante de ACM entregou o negócio dos grampos. Ex-esposa de Celso Pitta deu um depoimento fundamental para a acusação do ex-prefeito. Definitivamente, a corrupção na política brasileira é um incentivo à monogamia.
- "Descartar os espaços que são do povo é abrir mão do direito de viver com qualidade. Cada vez que um templo do cinema é entregue de mão beijada a uma instância de comércio religioso, estamos destruindo um espaço de lazer construido ao longo de muitos anos; nos trancafiando em mesquinha covardia, de frente a um aparelho de TV; trocando o saudável convívio dos semelhantes pelo esquizofrênico diálogo com a vulgaridade e com instâncias do popularesco que afrontam nossa dignidade."
"Fechamos nossos cinemas de rua e entregamos nossas ruas ao apetite dos bandidos e afins. O cinema, este se muda para os casulos que erguemos para nos proteger, longe do mundo real, longe dos sinais de vida. Quem está perdendo não são os cinemas. Quem está perdendo somos nós." -- Nelson Hoineff, sobre o recente fechamento dos dois cinemas Largo do Machado.
Burburinho, agora operando em versão 2.0
Teu cenário é uma beleza
Não satisfeito com a ladeira do convento, aquele maluco agora quer ladrilhar a escadaria da própria Joaquim Silva, gloriosa rua em outros tempos de Lapa, quando abrigava hotéis e pousadas de reputação duvidosa, onde moravam escritores, jornalistas e músicos de renome -- hoje, só mais um retrato na parede do Bar Ernesto.

15.4.03

Crioulo Rei
Ir a show do Jorge Ben é como ir a Meca, para os muçulmanos: todo mundo deveria fazer ao uma vez na vida sob pena de ser chamado de infiel. Eu, que sou muito religioso, já fui duas vezes.

Quando ele entra no palco, com aquele inconfundível ar desligado de quem acabou de acordar e a fleuma de agente secreto inglês com licença para matar recém-convocado, e toca a quebrar a munheca sobre as cordas do violão, passam pelos meus ouvidos um refrão ouvido em ritmo punk no Circo Voador, um hit recriado pelo pessoal do mangue bit, um consagrado hino de carnaval, um sampler numa moderníssima colagem eletrônica -- tudo imediatamente compactado na memória afetiva, abrindo espaço para o kernel, o cerne, o código fonte, programado naquele mesmo embalo animado e melodia suave. Faz mais um para a gente ver.

São quarenta anos em que Jorge Ben não fundou nenhum movimento revolucionário que iria salvar a música brasileira, não fez nenhum discurso político revoltado em suas letras (quase sempre incompreensíveis), não criou polêmica ao trocar violão por guitarra elétrica, não se exilou por causa de censura às suas letras, não passeou por diversos estilos segundo a moda da época, não mudou o penteado nem o jeito de vestir significativamente -- encarando um único ostracismo de menos de 10 anos. O segredo do algo mais e da alegria?

Que eu saiba, Jorge Ben é o único músico em seus shows agradecendo "pela atenção dispensada". É o único em quem eu consigo acreditar quando chega na beira do palco e diz, "Eu amo essa galera!", e talvez por isso ele consiga repetir o milagre tribal de colocar as 4 mil cabeças da Fundição Progresso sacudindo o esqueleto às 4 da manhã. Que, se deixassem, estariam pulando lá até agora ao tê-tê-tê-rê-tê-tê do Taj Mahal...Boa noite, boa noite, bom dia!
Wash Tubbs e Capitão César de Roy Crane: a primeira tira em quadrinhos de aventura de todos os tempos?
Projeto # 351-F
Escrever o glossário elesbão&haroldinhês-português de termos úteis em qualquer ocasião. O elesbão&haroldinhês sintetiza o português à meia dúzia de expressões linguísticas universais que servem para literalmente qualquer interação verbal minimamente articulada: Opa, pois não; Classe!...

11.4.03

Big Brother Brasil
Quase esqueço: outro dia esbarrei na rua com uma cara manjada, fui lembrar de onde e não deu outra -- era uma daquelas figuras entrevistadas pelo Eduardo Coutinho no documentário Edifício Master. Aquele coroa calvo que é entrevistado ao lado de sua senhora, recebendo dela um rapidíssimo olhar fulminante quando diz, "ela afirma que eu olho para as outras mulheres na rua". E depois o papo quase se transforma numa discussão sobre ciúme, fidelidade e amor entre os dois.
Isso é que é celebridade. Encontrar ator hollywoodiano na rua é mole :))
"Minha tia me dizia, quando eu tinha 5 ou 6 anos, que se eu apertasse o umbigo meu bumbum cairia! Eu fiquei aterrorizado por anos que alguém chegasse perto da minha barriga"
"Meu pediatra nos dizia que nossos umbigos seguravam nossos bumbuns no lugar. Ele disse que tinha uma caixa cheia de bumbuns de reserva, então quando alguma criança perdesse seu umbigo, ela não teria que andar por aí sem bunda."
"Eu achava que se meu umbigo se descolasse eu iria esvaziar e morrer. Eu sempre levava bronca na sala de aula por sentar com meu dedo no umbigo o dia todo."
"Quando eu tinha 3 ou 4 anos eu achava que se apertasse o umbigo, eu explodiria. Passei anos com medo de explodir por apertá-lo acidentalmente durante o banho e mamãe ficar com raiva de mim."

Essas e outras histórias infantis estão colecionadas em I used to believe.

10.4.03

Separados no nascimento: Stan Lee e Hugh Hefner.
“Certa manhã, ao acordar de sonhos inquietos, Rafael Lima viu-se transformado num hype.”
As 86 leis do bêbado moderno. Do newtonfo.
Usually, no one does. But I still think it's important to read comics in public — more to the point, it's important to Read Comics in Public.
The site is less a resource than it is a running commentary about comics and public life, based on the conviction, silly as it may sound, that reading comics in public is somehow "important" — to get comics out of their exclusionary little culture ghetto, to attract wayward former readers, maybe even to help comics professionals keep in mind the idea of attracting a broader audience when they're pasting up the covers to their next issues.

9.4.03

Mudanças neste blog para breve...

8.4.03

A nota deste blog que deu mais repercussão, antes da entrada do sistema de comentários, foi uma que dizia a Clarah Averbuck não saber escrever [sic]. Recebi links e mensagens de apoio por email. Recentemente, houve um quase surto por causa da nota onde está escrito que "rap não é música" [sic]. O que mais me espantou nem foi isso, foi a reação que presencei quando, em reunião recente, repeti em bom som a mesma frase. Meu interlocutor confessou que também achava que rap não era música; porém, receava as reações que tal declaração, por escrito, poderiam desencadear. Ao que alguém do lado aproveitou para intervir: "eu também acho!". Precisamente o que me espanta nessas situações não é nem a poeira que sobe numa suposta polêmica, nem o desvelamento de um insuspeito partidarismo. É a capacidade do despertar provocada pelo simples nomear das coisas, com todas as suas letras. O que me leva ao Alexandre Soares Silva.

Hoje me é claro, foi exatamente essa a característica de seus textos que me chamou a atenção, quando o conheci através da ex-coluna no Digestivo Cultural. Alexandre tinha essa habilidade rara nos nossos escritores-e-jornalistas de ir direto ao ponto, sem os circunlóquios ou tervigersações assaz caros à cordial e fluida alma brasileira. Não pisava na bola: "quem não lê não é humano". "Literatura não é civilizadora". Eficiência pela simplicidade. Produzir uma coluna semanal é muito diferente de escrever um livro; com o hábito, aprende-se as manhas, como pegar o leitor de jeito. Entretanto, se não houver cuidado, cai-se no vão da esterilidade formulesca ou do populismo fácil. Eu já era admirador da coluna do Alexandre por ver como ele conseguia escapar, semana após semana, das armadilhas do periodismo, por isso não hesitei em comprar seu livro A Coisa Não-Deus, quando o encontrei numa livraria (não foi difícil achar). Seria a prova dos nove: ver como ele se daria com as armas da alta literatura.

Guardo comigo a agradável satisfação de ter constatado que sua imaginação era ainda mais prodigiosa do que parecia, que seu fôlego narrativo ultrapassava as poucas laudas semanais, que sua habilidade verbal era maior do que o funcionalismo da defesa de idéias sinalizava. Paulo Polzonoff também gostou de A Coisa Não-Deus e resenhou-a para o Rascunho, motivando-me a redigir essa pequena memória pessoal. Esta nota é um agradecimento a ambos.
...daí o Cláudio comentou comigo que a inscrição no túmulo da lápide deveria ser, "Aqui jaz uma pessoa que veio ao mundo a passeio", ao que assenti. Não tinha bolado nenhuma definição melhor do que aquela, até o momento...
I don't want to stay here
I want to go back to
Zurique
(e o Magiozal também...)
Esse álbum é o bicho. Difícil de encontrar, agora descubro porque: era uma peça promocional, de pequena tiragem. Para aumentar a coleção de biografias de grandes artistas feitas por cartunistas, como a de Leonardo da Vinci pelo Ralph Steadman.

6.4.03

Outra coisa boa do Alexandre é que ele responde ao que é perguntado numa entrevista. Não consigo juntar figuras públicas brasileiras em número suficiente para encher os dedos da minha mão esquerda que façam isso, seja por jogar para a platéia, seja por plana incapacidade. Algumas opiniões:

Vergonha: Não é vergonha não ser publicado por uma grande editora, quando elas estão publicando as porcarias completas de Francisco Dantas ou algo assim.
Literatura brasileira: [meu livro] não tem cara, digamos, de literatura brasileira. Não tem jegue, não tem mendigo, não tem manicure, não tem traficante. [...] Da literatura brasileira um escritor só pode aprender a ser ruim. [...] Acho que não faz o menor sentido ensinar literatura brasileira numa escola, devia ser literatura, simplesmente. Deviam começar por Homero.
Exemplos: Entre todos os escritores da literatura mundial, eles escolheram Bukowsky e John Fante como modelos. Acho que isso diz tudo.
Humor: mesmo as criaturas mais solenes aprenderam a se envergonhar de sua falta de humor e tentam demonstrar que têm algum senso de humor ? nem que seja escatológico. [...] Ter humor não é tudo, é possível ter um humor pesado, como o do Marquês de Sade. O que mais me interessa é ter um humor leve, mesmo que, quase por acidente, profundo. Que seja profundo, que signifique alguma coisa, mas que seja leve.
Intelectual: tenho certeza que não sou um intelectual.
Experiência: já pensei em escrever um romance pornográfico (me recuso a dizer "erótico") só para que as mulheres achem que eu sou muito vivido. Charme: Não sei por que as pessoas nunca escolhem o charme como assunto (escolhem o ciúme, a criação de milho, a sífilis, o incesto, mas nunca o charme).
Blogs: Sei de quatro ou cinco grandes talentos que estão escrevendo exclusivamente em blogs. Pessoas com muito mais estilo, imaginação, humor, do que os escritores brasileiros oficiais, os publicados em papel, as grandes bestas solenes. Mas ninguém percebe isso.
Hobby: Grande parte da diversão é irritar leitores desavisados. É o meu hobby. E é fácil irritar as pessoas de esquerda, elas foram criadas pra isso mesmo.
Dândis: Como eu queria que Guimarães Rosa não tivesse desperdiçado seu gênio com matutos, e tivesse criado dândis.
Ministério da Educação e Cultura: meus livros não falam sobre drogas, gravidez precoce, violência urbana, e todas essas chatices que o MEC quer que as crianças leiam. E depois estranham que as crianças prefiram South Park.
Daniel Pellizzari canta o caminho das pedras:
"O melhor - superando mesmo as redes P2P - lugar para baixar bons livros (seja qual for o tema ...) é o IRC. O melhor canal, pelo menos dos que fucei até agora, é o #bookz da Undernet. Em dez minutos por lá baixei quinze livros, incluindo dois Bulgakov (...) e a autobiografia do Feynmann."

"Sim, é pirataria e roubo de direitos autorais (...); sim, eu preferia ter em papel - mas nas condições atuais é isso mesmo o que me resta. Pelo menos me ajudará a escolher o que comprar em códices depois, quando o dinheiro voltar ao meu bolso. Por enquanto, vou sugando tudo que dá. A oferta de títulos é realmente impressionante - para ler na tela, claro. Imprimir não é uma opção, porque acaba saindo tão ou mais caro do que comprar o livro ... Muita gente acha impossível ler textos longos no monitor, mas vamos combinar que isso é frescura. ... Se você tiver um notebook, então, a coisa fica ainda mais tranqüila. É apenas uma questão de se adaptar."

"Para quem se interessa por fazer o mesmo e não é um maldito preguiçoso, tome cá um breve tutorial for dummies: primeiro, você precisa de um cliente de IRC. Para windows, recomendo o vIRC (se você usa linux, não precisa de tutorial para usar o #bookz: abra o BitchX e seja feliz), mas a multidão prefere o mIRC. Instalado o programinha, configure-o como quiser e depois conecte em algum servidor da Undernet (/server us.undernet.org, por exemplo). Entre no canal (/join #bookz) e não fique com medo daquele caos de mensagens."

"A coisa funciona mais ou menos assim: vários dos usuários são servidores de livros, que se auto-divulgam a intervalos regulares. A primeira coisa que você precisa é baixar a lista de livros disponíveis de um desses servidores. Digamos que você quer a lista do servidor Foobooks: basta digitar @Foobooks. Entendeu? Digite o nick com uma arroba antes do primeiro caracter, e rapidinho você receberá a lista por DCC. Provavelmente será um arquivo zipado. Abra o sujeito e escolha algum livro - todos vão começar com uma exclamação. Se, por exemplo, o Foobooks tiver uma versão em PDF do The Sound and the Fury, basta colar o registro (que será algo parecido com !Foobooks William_Faulkner_-_The_Sound_And_The_Fury_(rtf).zip) no canal, como se você estivesse digitando uma mensagem. É o único momento em que é vital olhar para o caos: você receberá uma mensagem avisando que seu pedido foi recebido, e qual o seu lugar na fila (que nem sempre é grande ou mesmo existe). Assim que chegar sua vez, o arquivo é enviado automaticamente. E assim segue o baile."

"Para quem só está acostumado com a web, pode parecer complicado, mas é apenas impressão. Na verdade, este método é muito mais simples e prático, e a curva de aprendizado é mais que suave. Se duvida, tente procurar versões completas de livros ainda protegidos por copyright na web. A diferença é gritante. (...)"

"Só não esqueça do óbvio: livros de verdade são incalculavelmente melhores. Se você gostar muito de algum título, guarde uma grana e compre. Vai te fazer mais feliz."

(Leve em conta, ao ler as opiniões emitidas, que Daniel Pellizzari é escritor)

4.4.03

Zorba o grego, em três tempos:
Eu arregalo os olhos.
- Por que você não vai?
- Se você for comigo, eu vou. Se você não for, eu não vou.
- Mas por que? Você não é uma pessoa livre?
Palavra, eu senti que ia ficar maluco.
- Você não quer ser livre? -- gritei.
- Não, não quero! Não quero! Não quero!
Patrão, escrevo-lhe no quarto de Lola, no papel de Lola: pelo amor de Deus, preste atenção, eu lhe peço. Eu penso que só aquele que quer ser livre é um ser humano. A mulher não quer ser livre. Então, será que a mulher é um ser humano?

* * *

- Você não sabe! -- fez Zorba, e seus olhos se arregalaram como naquela noite em que lhe confessei que não sabia dançar.

* * *

Faltou pouco para que eu caísse no choro. Tudo o que Zorba dizia era justo. Em criança, eu era cheio de impulsos loucos, desejos que ultrapassam o homem, e o mundo não podia conter-me.
Pouco a pouco, com o tempo, tornei-me mais ajuizado. Estabelecia limites, separava o possível do impossível, o humano do divino, segurava firme a minha pipa para que não fugisse.
Agora, só ano que vem
Esgotaram-se em menos de 24 horas os ingressos para o Festival de Glastonbury, cuja própria realização estava ameaçada este ano após uma negativa ao pedido de licença para realizar o evento. É seguramente uma das maiores festas do mundo.

3.4.03

Gênio da raça
Luiz Sérgio Coelho de Sampaio ( * 10/11/1933 -- + 30/03/2003 ) nasceu em Vila Isabel e morreu em Laranjeiras, cidade do Rio de Janeiro. Nesse périplo carioca-brasileiro criou a lógica hiperdialética que se apresenta, para quem já dela tomou conhecimento, como a ferramenta intelectual mais poderosa desde a lógica clássica, formulada por Aristóteles, aplicada na pré-modernidade por São Thomas de Aquino e axiomatizada na modernidade por Leibniz, Whitehead, Russel e outros. A lógica hiperdialética sampaiana dá conta de todas as lógicas anteriores: a identidade, a diferença, a dialética e a clássica, aceitando-as em suas especificidades e coordenando suas potencialidades sob a força agregadora da lógica maior. O desenvolvimento da lógica hiperdialética se encontra nos dois livros publicados pela Editora da UERJ – Lógica Ressuscitada e Lógica da Diferença, bem como em textos avulsos de pouca circulação. A aplicação da hiperdialética se encontra em seu livro mais recente Filosofia da Cultura, pela Editora Agora da Ilha, e em muitos textos inéditos. Entre eles destacam-se um livro sobre Economia, no qual Sampaio propõe que o vetor ciência (e sua aplicação tecnologia) funciona com autonomia em relação aos vetores capital e trabalho, o que revoluciona o modo de se pensar a Economia e a Sociologia, incluindo o liberalismo e o marxismo; e outro sobre Física, cuja audácia maior é propor que a unificação, numa só teoria, da física quântica com a física da relatividade, tão almejada por Einstein, deveria ser procurada em pesquisas que articulassem as forças (que seriam seis e não quatro) e as partículas correspondentes a um esquema lógico qüinqüitário. De qualquer modo, Sampaio achava que a Física jamais seria unificada, pois faltava-lhe o sentido maior da subjetividade que incorpora todo o universo. Essas idéias foram desenvolvidas em um artigo sobre o chamado “princípio antrópico”, que se encontra em seu livro Filosofia da Cultura.

Ultimamente Sampaio vinha trabalhando na formulação de estratégias políticas e culturais que pudessem permitir ao Brasil dar um salto qualitativo que não somente equacionasse seus problemas sociais fundamentais, como o posicionasse na vanguarda da constituição de uma cultura de influência mundial. Nesse sentido Sampaio se alinhava com utopistas brasileiros como Gilberto Freyre e Darcy Ribeiro, ao lado de estrangeiros fascinados pelo Brasil como Stefan Zweig e Vilém Flusser.

Luiz Sérgio Coelho de Sampaio era filósofo por vocação e por dedicação didática. Profissionalmente era engenheiro formado pelo ITA, em 1959, e economista formado pela Faculdade de Ciências Econômicas (UERJ), em 1965. Foi um dos principais organizadores da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, entre 1967 e 1972, de onde saiu para a Embratel, onde desenvolveu o projeto Ciranda, de transmissão de dados em blocos (que antecedeu em alguns anos o sistema que resultou na Internet). Deu palestras em diversas universidades brasileiras, em Portugal, França, Alemanha e Romênia. Deixou mulher, três filhas, quatro netos e muitos amigos. Sua obra haverá de ser reconhecida em breve.
Visitei e recomendo. Além da cuidadosa curadoria do professor Moacy Cyrne, que se preocupou em tentar "explicar" a lógica da página de quadrinhos na entrada da exposição, a cenografia deixa a sensação incomparável de se estar passeando dentro de uma Hq.
Orwell na esquina
"Nunca imaginei que fosse testemunhar o totalitarismo tomando conta dos EUA, um país que eu sempre via nos filmes e nos livros como exemplo de terra de liberdade e oportunidade. Mas infelizmente é o que está acontecendo, com o governo cada vez mais estendendo suas garras sobre as liberdades individuais de forma descarada, tudo sob o manto da guerra ao terrorismo. A ameaça mais recente é a nova legislação a ser proposta pelo John Ashcroft (sim, aquele que mandou cobrir os seios da estátua da justiça) para complementar o Patriot Act, como denunciado pelo jornalista Matt Welch no texto Get Ready for PATRIOT II. O cenário é simplesmente assustador. Resta esperar que a população estadunidense seja capaz de perceber a trama por trás dos discursos e possa reagir a tempo de evitar que o país se transforme definitivamente numa ditadura orwelliana."

Morando lá, Nemo Nox já deve estar sentindo o bafo quente na nuca para colocar em seu diário algo assim. Leia o artigo de Matt Welch, leia o rascunho do PATRIOT II e depois não diga que não te avisaram.

2.4.03

Muito legal a página do Jeff Bridges, parece que ele mandou o rascunho do conteúdo via fax para o designer, que colocou na tela assim mesmo. Os rabisquinhos do Jeff me lembraram de Jules Feiffer e Wolinski, ainda que a animação na página de entrada seja a cara de Saul Steinberg, e tem ainda um monte de coisas inesperadas lá dentro, tipo: cabeças de argila e como fazer um labirinto. Dica do DoggoD.
Vruummmm!
Matéria no Jotabê hoje sobre o Circuito da Gávea, quando as corridas de baratinhas passavam por onde hoje é a PUC, e não havia fábrica de cigarro patrocinando ostensivamente as equipes. José Geraldo Barreto dá uma ótima idéia de como eram aqueles tempos em alguns capítulos de seu livro de memórias Apressado para Nada.
"As bombas da nova desordem social, o choque e espanto dos bushs caboclos, caíram também sobre nossa mais linda forma de arte. Bagdá em Bangu, na Rio Branco, na televisão, nas boates e não só - no Maracanã também. A cultura da bandalha, dos piratas tomando as calçadas, dos maçarandubas, silveirinhas e espertos do trânsito vai asfixiando tudo. Até na hora de jogar futebol, uma aula que sempre demos de respeito às leis e elevação aos mistérios do divino, a impressão é de que a delinqüência - está no resto do placar à direita das cabines - venceu."
Joaquim Ferreira dos Santos inventaria a irrefreável mulambalização do carioca. O resto, aqui.
Um artigo que eu gostaria de ter escrito: Os Insultos do Capitão Haddock. E matar de vez a sede, mais Tintin aqui.

1.4.03

Anna Fortuna
Torci um bocado o nariz para o Pasquim21, quando li o primeiro número; o velho clubismo ainda parecia vingar, com a reserva de feudos ocupados por filhos dos membros do Pasquim, ainda que nem sempre herdeiros do talento. Entretanto, um nome em particular me chamou a atenção: Anna Fortuna, filha do [Reginaldo] Fortuna, um dos melhores cartunistas do país nos anos 60-70. Versátil, trocadilhista, bom de texto e autor de cartuns memoráveis, o maranhense infelizmente não é um nome tão lembrado quanto Jaguar ou Ziraldo, ainda que não fique a dever-lhes nada seja em termos de talento, seja em termos de produção. Laerte alinha-o como um dos 10 mais em suas influências básicas, e dedicou-lhe uma tira quando do falecimento, em 1994. É um prazer descobrir aqui e ali no blog da Anna Fortuna reminiscências dos belos casamentos entre texto e ilustração, sacadas de alta criatividade visual. Só reclamo dos diálogos com a Mulher-cartum, que é uma boa personagem mas está rendendo menos do que poderia.
Nota fúnebre
Faleceu, neste final de semana, Luiz Sergio Coelho de Sampaio. Autor de Brasil: Luxo ou Originalidade e de A Lógica da Diferença, Sampaio tem uma vasta coleção de escritos disponíveis na rede, entre os quais A matematicidade da matemática surpreendida em sua própria casa nua, na passagem dos semigrupos aos monóides e Dialética Trinitária versus Hiperdialética Qüinqüitária. Se as hipóteses assumidas em seu livro Física Moderna, ainda não publicado, forem provadas verdadeiras, a descoberta vale o Prêmio Nobel.
Manchetes de todo o mundo: agora só falta aprender as línguas...
Muita coisa acontecendo, motivo para uma ronda:
1) Cris Dias volta hoje para o Rio! Isso se ele não tiver armado o maior primeiro de abril que eu já vi na paróquia...

2) Não é à toa a guerra, como percebe o Elesbão.

3) Alexandre Soares Silva instalou comentários.

4) Enio andou despertando saudades esquecidas ao publicar as divertidas tiras do Reizinho, de Otto Soglow. Mort Walker, criador do Recruta Zero, teria batizado o cachorro Otto, mascote do Sargento Tainha, em homenagem a Soglow. Não confundir com Oto, o cão lapidar das tirinhas de Jaguar e Ivan Lessa, esse homenagem a Oto Lara Resende. Manda mais, Enio!

5) Eurico Miranda, você é um amador. Quando descobrir isso, rapidinho vai encomendar seus Scuds... (dica maravilhosa do Blog0news)